Caminho Português: do Porto a Santiago em 10 dias
Em maio de 2009, Peter Klüppelholz caminha do Porto a Santiago em dez dias: diário de albergues, chuva, bolhas e uma peregrina hippie.

Em maio de 2009, Peter Klüppelholz percorreu em dez dias o Caminho Português, do Porto a Santiago de Compostela. As notas do diário que escreveu pelo caminho falam de albergues, chuva e bolhas – e de uma peregrina hippie com flores de feno atadas ao bordão.
O Caminho de Santiago é um grande mestre para reconhecermos as pequenas coisas e o essencial, e para sermos felizes. Coragem!
Dia 1: Porto
Pois bem, aqui estou eu outra vez no Caminho; a peregrinação deve começar no Porto e levar-me até Santiago. Estou sentado, com uma temperatura maravilhosamente amena, perto do histórico museu nacional, num café acolhedor, e a minha pensão Franca também fica a dois passos daqui. Melhor não podia ter calhado. O voo foi de Düsseldorf, via Palma, até ao Porto. Quando cheguei ao Porto, só fiquei contente por as canseiras do voo terem finalmente acabado. Depois de recolher a bagagem, tive de constatar que me tinham roubado o canivete. Antigamente teria ficado furioso e tê-lo-ia feito sentir a quem estivesse à minha volta, mas hoje reajo com toda a calma, porque há coisas mais importantes na minha mochila, de que realmente preciso. Espero, claro, que esta seja a minha única perda pelo caminho.
Esta noite estou quase grato ao ladrão, porque assim aprendi a minha 1.ª lição no Caminho: não te aborreças com coisas que já não se podem mudar. Obrigado, ladrão! E diverte-te com o canivete.
A minha primeira impressão do Porto é que aqui não é tão moderno como me parecem as cidades espanholas. Encontrar o caminho certo no Porto é bastante complicado, e até os próprios portugueses têm as suas dificuldades com a cidade – ou será antes por causa dos meus problemas com a língua? Mas são todos muito prestáveis. A minha teimosia acabou por vencer e lá encontrei a Sé, onde o meu caminho deve começar. Estou a pensar fazer os primeiros quilómetros de autocarro, para poupar as zonas industriais e os arredores aborrecidos, mas ainda não tomei uma decisão. Já estou ansioso por amanhã e vou terminar o dia com calma.
Dia 2: Rates
São quase 18 horas e estou sentado no meu albergue em solo português, a gozar o sossego depois de 20 km a pé. Infelizmente, o dia de hoje levou-me sobretudo ao longo de uma estrada nacional, o que, com a maneira de conduzir das pessoas aqui, não é mesmo nada agradável. Felizmente não houve grandes subidas no caminho e, para começar, até esteve bem, mas amanhã a paisagem deve finalmente melhorar.
Muitas pessoas que acham que se deve peregrinar sozinho têm razão, o que mais tarde se foi confirmando cada vez mais. Só tu és dono dos teus próprios pensamentos, só tu decides o teu ritmo, e és tu que decides quando precisas de uma pausa. Mais tarde também percebi que são os teus pensamentos que determinam o teu ritmo. Como não me cruzei com um único peregrino pelo caminho, foi uma bênção para mim.
Mais tarde, no albergue, fiquei mesmo assim admirado com o grande número de peregrinos. De onde é que vieram todos? Tive de partilhar o quarto com outros 10 peregrinos e, para a minha primeira noite, foi coisa a que custa a habituar. São sobretudo portugueses, para quem isto é jogar em casa. De resto há muitos franceses, holandeses, e o que as quatro senhoras australianas vieram cá fazer também não percebi bem. Mas cada um tem as suas razões pessoais para fazer o caminho. O meu planeamento é muito ousado: amanhã serão mais uns míseros 15 km, e depois seguem-se dias de 30 km e mais. Vamos ver se isso é possível com a minha mochila de 11 kg e com os meus pés.
Dia 3: Barcelos
Acabei de saborear o meu menu do peregrino. Era uma sopa de couve, uma salada e pedaços de frango com batatas fritas e arroz. Delicioso mesmo! Pena que o empregado me tenha trazido tudo ao mesmo tempo – pelos vistos, eu tinha cara de estar quase a morrer de fome. O dia de hoje foi realmente muito bonito, levou-me por caminhos de campos e prados, e na primavera a natureza é um prazer …
Quando cheguei a Barcelos, uma portuguesa mostrou-me o caminho para a minha pensão, que no guia vinha descrita como muito bonita. Como estava totalmente cansado, a primeira coisa que fiz foi uma sesta numa cama fresca e limpa. Depois de um duche demorado, que equivalia a um duche de parque de campismo – talvez este quarto seja destinado a holandeses –, sentei-me num café e deixei-me impregnar pelas pessoas e pela cidade.
Depois da pausa fui passear pela cidade, passei por uma igreja e ouvi que estava a haver missa. Senti necessidade de participar e, depois da missa, o padre perguntou-me se eu estava a caminho de Santiago. Disse que sim, mas no mesmo instante ocorreu-me uma resposta mais certeira. Não, a caminho de mim mesmo, mas o caminho passa por Santiago!
Quando cheguei à pensão, apanhei um valente susto. Estava um gato deitado na minha varanda, onde eu não esperava mesmo nada encontrá-lo. Depois de eu abrir a porta da varanda e de ele perder o medo do peregrino, o seu interesse virou-se para as minhas meias perfumadas. Agora aparece de vez em quando para ver se está tudo em ordem.
Dia 4: Ponte de Lima
Às 6 horas o despertador arrancou-me ao sono. Tinha um certo receio do dia de hoje, por causa das distâncias. Os primeiros km custam-me sempre e demoro sempre até atingir a minha temperatura de funcionamento de peregrino. Até me perdi pelo caminho, porque não vi uma seta, e levei a coisa com humor. Em Portugal, a sinalização das localidades é muito má. Quando li uma placa com o nome Portela, fiquei muito admirado. No meu guia, esta localidade estava marcada muito mais perto do meu destino. Isto não pode ser, pensei eu, e fiquei quase eufórico, o que mais tarde se havia de vingar. Havia duas Portelas, uma Portela e uma Portela de Tamel, e eu, pateta, ainda caio nessa. Confia sempre no teu instinto, ele não te engana!
Dia 5: Valença
Sim, hoje voltei a andar imenso e, para dizer o mínimo, estou farto de tantos km por dia, e ainda por cima com aquele sol. Esta é a minha última noite em Portugal e amanhã chego a Espanha. Por hoje só anseio pela minha cama, e amanhã de manhã vou ver a parte antiga da cidade.
Dia 6: Mos
É domingo e estou sentado sozinho num café na parte antiga, a saborear um bolo maravilhoso com muito café. Não podia deixar escapar a oportunidade de um pequeno-almoço barato. Espanha de certeza que não vai ser tão barata. As minhas bolhas estão ótimas e, na verdade, estou só contente por ter conseguido fazer o dia de ontem. Quando vou absorto nos meus pensamentos pelo caminho, quase não sinto o cansaço e os meus problemas nos pés desaparecem. Ontem, porém, voltei a cair no meu velho hábito e só me apetecia voltar para trás, até ao português que me disse que eram só 4 km até à cidade; a mim pareceram-me 8 km e já não me apetecia nada. Podia ter-lhe dito umas quantas verdades em voz alta.
Dia 7: Pontevedra
Ontem, quando pousei o meu diário no albergue, ainda chegou mais um peregrino. Era um belga de 64 anos que, por razões de saúde, teve de deixar a função pública e agora peregrina de Santiago até Fátima. Para estes 460 km tem tempo até setembro. Fiquei muito espantado, ele reparou e disse-me uma frase certeira: de que me serve encontrar aqui a morte? Assim tenho mais tempo para me encontrar a mim mesmo. Sim, esta frase está certa! Também a mim me parece que encontrei o meu passo pessoal do Caminho.
Dia 8: Caldas de Reis
Há dias na vida a que posso dar um título. Ao dia de hoje dei o título «A batalha de água da Galiza». Mas vamos por partes: ontem voltei a dormir muito mal, mas aos poucos vou-me habituando às noites curtas. O albergue era mesmo muito bonito e moderno, mas dormir com 15 peregrinos numa sala nem sempre é um prazer. Ou há alguém a ressonar, ou durmo ao lado de uma peregrina hippie que atou flores de feno ao bordão, e que cheiram terrivelmente mal. Ainda pensei em dizer-lhe que cães e flores de feno eram proibidos no albergue.
De manhã, para me consolar, houve um pequeno-almoço excelente num café acolhedor. Mal eu queria arrancar, começou de repente a chover a cântaros. Como não tinha casaco impermeável comigo, em poucos minutos fiquei encharcado até aos ossos. Há coisas bem mais bonitas, e eu estava só no início da etapa. Quando ainda por cima tive de subir um caminho de terra, foi o fim das minhas botas. Pareciam um barco salva-vidas cheio de água. Cada passo doía-me. A minha reação foi simplesmente gritar bem alto «Geil». Levei a coisa com humor. Ao fim de 10 km cheguei a uma aldeia e entrei de rompante no primeiro café da terra. Tinha mesmo medo pelo meu escritório de peregrino (passaporte, telemóvel, máquina fotográfica, bilhetes de avião, credencial e guia). Pensei: se as coisas ficarem molhadas, tenho um problema. Felizmente, o meu escritório tinha ficado seco. No café, a avó da cozinha, uma velha espanhola, deu-me uma t-shirt seca; fiquei-lhe mesmo grato. Depois de uma pausa era para continuar, mas os pés doíam-me como o diabo e só conseguia avançar a passo de caracol. De repente, um carro parou ao meu lado e o condutor fez sinal de que me levava um bocado. Pensei: já tenho um ar assim tão digno de pena? É que, na verdade, os espanhóis só param quando um peregrino já está caído no chão.
Claro que continuei a pé, porque também tinha o meu orgulho. Quando cheguei a Caldas, fui logo direito à escola, que estava sinalizada como o meu albergue. Infelizmente estava fechada. Que chatice, pensei, neste caso o meu guia não estava certo. Fiquei mesmo zangado: o albergue seguinte ficava a 18 km, claramente demasiado para mim. A poucos metros da escola havia um hotel, onde fiquei instalado nessa noite. Finalmente uma cama fresca e nem sombra de peregrina hippie.
Dia 9: Padrón
Na verdade, hoje queria peregrinar até Teo, a 12 km de Santiago, mas como a minha cama estava tão confortável, dormi até às 9 horas. Para os meus 30 km, claramente tarde demais, pensei logo.
Pouco depois de Caldas de Reis ocorreu-me: porque é que estou a correr tanto para chegar a Santiago? Basta andar hoje 18 km e ir com mais calma. Precisamente nos últimos km antes de Santiago, muitos sobrestimam-se e só querem chegar. Não vou cometer o mesmo erro. Chegar ao meio-dia ou ao fim da tarde deve dar igual. Assim pude aproveitar o dia de hoje, e o tempo também ajudou. Cada passo foi um bálsamo para mim, e amanhã é dia de peregrinar pela cidade. Já me habituei às noites curtas e fico admirado com as forças que o meu corpo tem no Caminho. Mas também sinto que a minha bateria se está a esgotar aos poucos.
Aliás, estou neste momento sentado num café e declarei o dia de hoje o meu dia das calorias. Nos dias anteriores comi simplesmente pouco demais. Pronto, agora estou à espera da minha salada, depois vem um prato de grelhados, e para a sobremesa já liguei o meu departamento criativo. A empregada ficou de boca aberta – pelos vistos, eu tinha cara de estar quase a morrer de fome. Por causa da comida até prescindi do duche, coisa que normalmente não faço. Depois de escrever estas linhas voltei para o albergue e o que é que vi lá? O bordão com as flores de feno. Ótimo, pensei. Mas hoje ela dorme a algumas camas de distância.
Dia 10: Santiago
A chegada a Santiago ainda foi para mim um bocado de trabalho árduo. Até pouco antes da cidade ainda andei por caminhos de peregrinos solitários. Bonito, dir-se-ia, mas quando uma cidade está à minha espera, só fico contente por finalmente chegar. Quando por fim fiquei diante da catedral, arranquei a mochila das costas e deixei o momento da chegada tomar conta de mim. Foi mesmo avassalador chegar ao lugar que em 2005 eu dava por encerrado, mas onde só em 2009 iria chegar como uma pessoa nova. Ah, e ninguém precisa de me perguntar pela misteriosa peregrina hippie: como essa história acabou, guardo-o bem para mim.
Há caminhos que demoram bastante!
Em Santiago, diante da catedral, jurei a mim mesmo que, se o caminho voltar a chamar-me, haverá um peregrino que se põe a caminho.
Os caminhos de peregrinação de Peter Klüppelholz
- 2003: Burgos – Sahagún
- 2005: Saint-Jean-Pied-de-Port – Santiago
- 2006: Huesca – Puente la Reina
- 2009: Porto – Santiago
- 2012: Wuppertal – Colónia
- 2013: Colónia, por Aachen, até Liège
- 2014: (em planeamento) Liège – fronteira com França
O caminho no Camino Ninja
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