Ökumenischer Pilgerweg 2013: de Görlitz a Wurzen
Andrea e Gert Kleinsteuber peregrinam em 2013 pela Via Regia, de Görlitz pela Alta Lusácia e vale do Elba até Wurzen – parte 2 do seu Ökumenischer Pilgerweg.

Em 2012, Andrea e Gert Kleinsteuber peregrinaram pelo Ökumenischer Pilgerweg desde a sua casa, perto de Delitzsch, até Eisenach. Em 2013 seguiu-se a segunda parte: de comboio até Görlitz e, de lá, a pé de volta em direção a casa – pela Alta Lusácia, passando por Bautzen, Kamenz, Großenhain e Strehla, junto ao Elba, até Nepperwitz, perto de Wurzen. Gert conta dez dias de caminhada cheios de encontros, chuva, frio e hospitalidade saxónica.
- Parte 1 (2012): Via Regia / Ökumenischer Pilgerweg – de casa até Eisenach
- Parte 2 (2013): De Görlitz a Nepperwitz – é esta a parte que estás a ler
O relato original encontra-se no blogue do Gert: gertkleinsteuber.blogspot.de
O dia da viagem: de comboio de Delitzsch a Görlitz
Antes de uma viagem temos sempre umas imagens na cabeça e queremos imaginar como é o sítio para onde vamos e como vai ser. E como a realidade costuma ser ainda mais bonita, ou pelo menos diferente, daquilo que inventámos, partimos agora já pela 5.ª vez para endireitar essas imagens. E daqui a 10 dias queremos voltar a chegar a casa. Mas primeiro vamos a pé até à estação de baixo de Delitzsch. Ainda está escuro, a casa está fria e o dia de ontem ainda me pesa nos ossos. É que ontem houve na nossa terra a Festa Regional das Colheitas. Um dos eventos realizou-se juntamente com a já tradicional festa na quinta do nosso agricultor de batatas cá da terra. E também já é tradição que nós, como associação local e corpo de bombeiros voluntários, ajudemos na organização. E assim estendi uns bons metros de cabo, instalei sistemas de som e, à noite, desmontei tudo outra vez. Com certeza juntaram-se mais uns quantos quilómetros, e também se fez tarde.

As nossas mochilas
E isso significou que os últimos preparativos para a nossa viagem só aconteceram tarde da noite. Para isso, como sempre, espalhei todo o conteúdo das mochilas pelo chão, para não me esquecer de nada. De manhã, mais um olhar de verificação – está tudo. A mochila parece estar só meio cheia, apesar de já levarmos o jantar e o farnel. Talvez a Deuter mais pequena também tivesse servido, só que essa pesa mais 400 g. Enfim, agora está tudo arrumado e as botas acabadas de encerar, que me vão levar pela Saxónia nos próximos dias, estão atadas. A porta já bate na fechadura e um último olhar para trás deixa a nossa casa desaparecer no escuro. Ainda há qualquer coisa que aperta. Vai levar algum tempo até eu encontrar o ajuste ideal das alças da mochila. Caminhamos lado a lado em silêncio, ainda um pouco cansados, mas cheios de alegre expectativa pelos dias que aí vêm.
A estação de baixo não fica longe. Ao fim de 20 minutos corremos os últimos metros até ao comboio, que já está na plataforma pronto a partir. É um comboio antes do nosso, que ainda conseguimos apanhar à justa – na verdade um disparate, porque em Leipzig temos tempo de sobra para a ligação e agora vamos ter de esperar lá mais tempo. Mas na moderna e animada estação central de Leipzig isso deve ser mais divertido.

No comboio para Leipzig
A Andrea pergunta, preocupada, se podemos sequer viajar neste comboio. Volto a espreitar o bolso e verifico, aliviado, que o bilhete impresso está lá. «Sim, sim, há de dar», digo eu. «Por um bocadinho tão curto, os caminhos de ferro não vão ser tão esquisitos» – apesar de saber que no meu bilhete impresso diz que só se podem usar os meios de transporte indicados. Chegamos depressa a Leipzig e saímos sem controlo. Não, não, não é isso! Quero dizer que no comboio ninguém nos pediu os bilhetes. E assim nunca vamos saber se o nosso bilhete era válido ou não. Pronto, agora ainda temos mais de três quartos de hora.

Estação central de Leipzig
Os bancos da plataforma são duros e lisos. Com as minhas calças de caminhada novas do Lidl (9,99 € !!) escorrego de um lado para o outro na madeira envernizada. Os muitos viajantes à nossa volta estão à espera de outro comboio. E quando este sai da estação, ficamos quase sozinhos na plataforma. Isso pouco muda quando põem o ICE para Dresden na linha. É a primeira vez que eu, viciado confesso em carros, vou andar de ICE. A Andrea ainda está na casa de banho quando espreito, curioso, pelos vidros da carruagem-bistrô. Pego então nas duas mochilas e avanço um pouco, passando pela carruagem de 1.ª classe. A Andrea há de ver-me na plataforma, que continua quase vazia. Quando ela finalmente volta, posso trocar o banco desconfortável da plataforma pelo assento macio do ICE.

ICE Torgau
Fico contente como uma criança com as portas de vidro dos compartimentos, que fazem um ruído sibilante como na nave Enterprise quando, como que movidas por mão invisível, desaparecem para o lado à nossa frente. Pfffft, faz outra vez atrás de nós e há… silêncio. É a primeira coisa que me salta à vista. Escolhemos um lugar com mesa, onde nos sentamos frente a frente. A Andrea trouxe café e bolos e assim podemos tomar o pequeno-almoço neste ambiente agradavelmente sossegado. Aquilo tudo tem qualquer coisa do interior de um avião. Estou encantado. Já não tão encantado fico quando uma turma de escola se instala precisamente na nossa carruagem. A Andrea diz: em casa não abrem a boca e é preciso arrancar-lhes cada palavra a ferros, e aqui, entre eles, não há assunto parvo demais para não ser discutido aos gritos e em grande algazarra. Pois é, os queridos meninos!

A paisagem passa a deslizar
Para encurtar a história – em cerca de uma hora estávamos em Dresden Neustadt e, tirando o último troço antes da estação de Neustadt, sempre a uma velocidade estonteante. Não há comparação com antigamente, quando durante dois anos fiz este percurso de 15 em 15 dias, quase sempre de pé, num comboio rápido da Deutsche Reichsbahn. Um quarto do meu precioso fim de semana em casa passava-o assim nas garras da Deutsche Reichsbahn. O que se pode viver ali dava para encher livros. Essa é certamente uma vantagem do comboio em relação ao carro: temos tempo para nos ocuparmos das circunstâncias e das pessoas à nossa volta e para lidar com elas. Mas agora ocupamo-nos da estação de Neustadt. Por causa das obras, subimos e descemos escadas e atravessamos corredores escuros e sujos para chegar ao átrio da estação.

Eierschecke de Dresden
E ficamos completamente surpreendidos com o que vemos. Por mais feias que sejam as plataformas, o átrio ficou-lhes bonito. Parece-me claro e acolhedor quando entramos, vindos da escuridão da passagem encardida. Reparo logo nas duas bancas de comida. Velha sabedoria de peregrino: come quando há comida, não quando tens fome. Mais tarde pode já não haver oportunidade. E logo temos à nossa frente duas canecas de café e dois pratos de Eierschecke de Dresden. Quem nunca comeu Eierschecke de Dresden, ou nem sequer a conhece, o que é quase impensável, nunca viveu! Com a última colherada, porém, constato – demasiado! Os olhos foram outra vez maiores do que a barriga. Nessas alturas irrito-me imenso, porque assim contribuo, claro, para que o meu corpo cresça na direção errada. Tenho de emagrecer! Na bagagem poupo cada grama e eu próprio carrego quilos de peso a mais. Mas primeiro há que vencer a preguiça interior. E se as peregrinações me ajudam nisso, já tenho as minhas dúvidas. No primeiro caminho (800 km em 5 semanas) perdi quase 10 kg, que voltaram depressa. Nos outros caminhos perdi muito menos peso. Talvez a culpa seja da velha sabedoria de peregrino de comer quando há comida. Ou então há mesmo oportunidades a mais. Antes que continue a matutar nisto, chega a hora de nos juntarmos aos que esperam na plataforma. «Atenção, um aviso: o comboio regional para Görlitz tem previsivelmente…» Ah, finalmente, assim já me parece mais familiar, o comboio, vem-me à cabeça sem surpresa. O atraso, no entanto, foi moderado. Uma automotora a diesel entra roncando no átrio da estação e gera-se um pequeno empurra-empurra antes de chegarmos aos nossos lugares. Quando o comboio arranca, percebo logo porque é que quase ninguém me quis disputar o lugar. Devo estar sentado mesmo em cima do motor diesel, disse eu à Andrea. Que contraste com o ICE. Mal se ouve a própria voz. A linha para Görlitz, por Bischofswerda e Bautzen, não está eletrificada e por isso usam estas automotoras a diesel, que gastam, pelos vistos, uma boa parte do combustível a fazer barulho. A pensar que vou ter de voltar a percorrer a pé tudo aquilo lá fora, olho pela janela e descubro, além de coisas novas, muitas já conhecidas. Bischofswerda e a silhueta de Bautzen são-me familiares.

Estação de Görlitz
Mas em Görlitz nunca tinha estado. Já tinha ouvido muita coisa sobre Görlitz. É a cidade mais oriental da Alemanha e tem um centro histórico quase totalmente preservado, razão pela qual Hollywood gosta de a usar como cenário e já aqui se rodaram muitos filmes conhecidos internacionalmente. Também já tinha ouvido que a cidade recebe todos os anos 500 mil euros de um doador generoso mas desconhecido para a reabilitação urbana, e acho notável e admirável que o benfeitor não queira nenhum monumento na cidade e que tencione suspender os pagamentos de imediato se alguém revelar a sua identidade. Também conheço das notícias da imprensa e da televisão a confusão à volta do lindíssimo armazém Arte Nova. A imagem que faço da cidade vem sobretudo de fotografias ou da televisão. Isso, claro, aumenta a minha curiosidade quando estou no largo em frente à estação e tento orientar-me. Olho com mais atenção e volto a perceber bastante depressa: as imagens na minha cabeça afastam-se bastante da realidade.
Em casa não gosto de quadros tortos nas paredes e passo a vida a endireitá-los.
Pois bem, vamos então outra vez endireitar as imagens que temos na cabeça.
O dia em Görlitz
A rua larga para onde todos vão parece ser a certa, disse eu à Andrea quando saímos da estação. Berliner Straße, até soa muito importante. E logo seguimos o grupo de peões. Quase perdia o verde porque ainda quis tirar depressa uma fotografia à estação. Atravesso a rua a correr.

Portal Arte Nova na Berliner Straße
Sim, isto deve estar certo. Porque a rua passa a ser pedonal – sinal de que nos aproximamos do centro. Tirando uns restos cinzentos à espera de reabilitação, já aqui as fachadas eram bonitas de ver. Salta-me à vista, do lado direito da rua, um grande portal Arte Nova que sobressai muito do alinhamento das casas. E já tenho outra vez a máquina fotográfica na mão. Olha, uma placa de direção! Estamos portanto na Postplatz, bem visível o edifício dos correios naquele estilo em que, por volta da Gründerzeit, provavelmente todos os edifícios dos correios da Alemanha foram construídos ao mesmo tempo.
Deixamo-nos levar por uma placa a dizer «Theaterpassage» para um pequeno desvio, para acabarmos afinal na Marienplatz. «Agora vou ver primeiro onde estamos e para onde temos de ir, e ligo para o albergue», digo à Andrea, e dirijo-me a um banco livre. E enquanto o GPS arranca, marco no telemóvel o número do albergue. Infelizmente só atende o atendedor de chamadas. Muito bem-comportado, digo a minha deixa: que somos os dois peregrinos que se inscreveram há uns dias e que este é o meu número para nos ligarem de volta. Ah, já encontrei: Langenstraße 43, é para lá que temos de ir. E lá vamos nós a marchar. Na verdade, teria tido tempo suficiente. Mas uma fotografia do famoso armazém com a fachada Arte Nova na Marienplatz falta-me, infelizmente, na minha coleção.

no Obermarkt
Passamos por entre os carros estacionados e atravessamos o Obermarkt, e eu vou com o GPS à frente do nariz. Aqui ainda não há conchas que nos levem ao albergue, e mapas de papel são coisa que detesto. Primeiro, o papel é pesadíssimo e, segundo, sempre tive problemas em voltar a dobrar aquelas coisas como deve ser. Claro que já ando à procura de motivos para fotografar. E reparo numa torre de igreja muito esguia. É a torre da Dreifaltigkeitskirche, a Igreja da Santíssima Trindade, um antigo convento franciscano. Só de longe consigo apanhá-la toda na fotografia em formato horizontal. Caramba, que comprida e estreita que ela é, de algum modo muito diferente das torres de igreja que costumo conhecer.

Fonte de São Jorge no Obermarkt

A missão urbana evangélica na Langenstraße 43
À frente, uma bonita fonte com um guarda municipal que segura uma alabarda. Fontes deste género só conhecia até agora da Suíça e lembro-me de uma muito parecida em Sion. Seria um bom ponto de encontro com o Uwe, porque, segundo o GPS, o nosso albergue já não estava longe. Conheço o Uwe do fórum de peregrinos. É de Görlitz, também já fez o öP e ofereceu-se espontaneamente para nos mostrar a sua cidade. Por SMS já lhe tinha anunciado que estávamos na Marienplatz. Mas agora vamos ao albergue. Apresenta-se com uma veste muito bonita. A casa representa na sua forma a arquitetura barroca de Görlitz e foi a residência do fundador da Sociedade das Ciências da Alta Lusácia, Karl Gottlob Anton (fui verificar). Hoje acolhe a missão urbana evangélica e dá alojamento a peregrinos. À entrada está pendurado um papel. Isso é bom sinal. E nele diz a quem devemos tocar. Completamente surpreendida, a senhora deixa-nos entrar e diz que só nos esperava amanhã. Não, não, eu inscrevi-nos para hoje e até já liguei e deixei mensagem no atendedor. Ela diz que só para amanhã se tinham inscrito duas pessoas com o apelido Kleinschmidt. Devemos ser nós, digo eu, com a observação de que o nosso nome já foi estropiado muitas vezes. Só na hora de pagar é que percebo o nosso, ou melhor, o meu erro. Estamos na casa errada. E até à minha pergunta se estávamos na Gästehaus Peregrinus a senhora respondeu que sim, sim. Pelos vistos não me tinha percebido bem.

O nosso quarto
Caí num erro da minha própria tabela, muito elogiada por outros utilizadores. Online, a tabela tem a morada certa. Eu tinha levado impressa uma versão anterior. Para quem ainda não sabe: um dia sentei-me e reuni todas as informações relevantes sobre os albergues de peregrinos do Ökumenischer Pilgerweg, como morada, números de telefone, pessoas de contacto, particularidades, equipamento, preços e pontos de interesse da localidade, e juntei tudo numa tabela de Excel. O guia do peregrino é muito bonito, mas também bastante pesado. Para quem conta os gramas como eu, está fora de questão. Pois e nessa tabela o número 43 da Langenstraße aparece duas vezes. O certo, porém, teria sido o 47. É aí que fica a Gästehaus Peregrinus, onde nos tínhamos inscrito. Hmm, e esta custa metade. Mas 20 euros com pequeno-almoço incluído também é muito em conta, e assim, depois de um olhar de aprovação, ficámos de acordo em ficar aqui e não esclarecer mais o equívoco. (Mas depois ainda liguei para o Peregrinus para pedir desculpa.) Também é complicado: dois albergues na mesma rua, um deles inacessível, um nome quase igual ao de dois outros hóspedes inscritos e ainda por cima o evidente mal-entendido da senhora que nos deixou entrar.

A Andrea na cozinha do albergue
Bem, isto começa bonito, penso eu. Mas quando vejo a casa e o quarto, já acho: bem, podia ter-nos calhado pior. Há até um televisor no quarto duplo, o que hoje não é de todo irrelevante, porque há eleições para o Bundestag. Já tínhamos entregado o nosso voto por correspondência. (Uma expressão estranha, acho eu. Então já não temos voto??) De resto, num caminho de peregrinação evitamos qualquer confronto com os meios de comunicação de massas, o que é muito libertador e tranquilizante. Mas num dia destes quer-se mesmo saber como acabaram as eleições. Instalamo-nos como em casa – ou seja, estendemos os sacos-cama nas camas, comemos qualquer coisa e vamos até à tal fonte, onde tínhamos combinado com o Uwe por SMS. O Uwe, como funcionário municipal, tinha sido destacado para o serviço na assembleia de voto e tirou umas horas para nós.

Na Dreifaltigkeitskirche
Claro que chegamos um pouco cedo e aproveitamos o tempo para ver a Dreifaltigkeitskirche. Pergunto por uma autorização para fotografar, que custa 1,50 €. «Se pagar logo três euros, dou-lhe um papel com o qual tem autorização para fotografar em todas as igrejas da cidade», diz o funcionário ao balcão. Claro que fazemos isso. E logo estamos no meio daquele espaço enorme. E antes de descrever aqui tudo ao pormenor, prefiro deixar um link. Claro que uso a autorização acabada de comprar e encontro muitos motivos interessantes. Depois chega a hora e pomo-nos bem à vista junto à fonte. Reconheço o Uwe de imediato, apesar de só o ter visto uma vez num retrato na internet. Cumprimentamo-nos como velhos amigos e ele começa logo a contar coisas sobre a sua cidade. O orgulho que tem nela nota-se em cada palavra. O que eu mais queria era ter um gravador a funcionar. Porque de qualquer maneira não se consegue fixar tudo de uma vez. Vou guardar-me bem de tentar contar aqui tudo outra vez. Vão vocês mesmos a Görlitz. Vejam com os vossos olhos e vão perceber que de um centro histórico medieval se pode fazer outra coisa que não uma rua comercial sem rosto e intermutável, que só se distingue de cidade para cidade pela ordem diferente dos templos do consumo. E mesmo sem esta oferta de consumo sobredimensionada, uma cidade assim pode parecer cheia de vida.

Câmara Municipal no Untermarkt
Para cada casa o Uwe tem uma história para contar, e pergunto-lhe qual é a profissão dele. «Sou o comandante dos bombeiros da cidade», responde. Ah, agora percebo porque sabe tanto sobre a cidade. Quem, senão os bombeiros, haveria de conhecer bem um emaranhado destes de casas antigas cheias de recantos, transformadas e ampliadas ao longo de séculos? E logo me desabafa as suas penas, os problemas que dá impor a proteção contra incêndios numa cidade assim. Leva-nos pelo Untermarkt, conta qualquer coisa sobre o interessantíssimo relógio da Câmara e chama a atenção para a cabeça que espreita e abre a boca a cada minuto certo, e para a escadaria da Câmara, onde está uma Justiça em cima de uma coluna, e porque é que esta Justiça não tem os olhos vendados, como é habitual.

O arco dos sussurros em ação
Leva-nos ao arco dos sussurros e deixa-nos experimentar nós mesmos o efeito impressionante. Entramos num dos pátios interiores, cujas passagens pelas casas eram sempre dimensionadas de modo a que coubessem carroças cheias de mercadorias. Por todo o lado se vê que esta foi, na Idade Média, uma importante metrópole comercial. Isto deve-se à localização junto ao Neisse e, claro, à Via Regia. A forma e a decoração das casas revelam que havia aqui muito dinheiro na cidade, e os burgueses exibiam-no com orgulho. Hoje, entre outras coisas, entra dinheiro na cidade vindo de fonte desconhecida. Porque todos os anos há um donativo para o centro histórico de um benfeitor generoso e anónimo. Antigamente era um milhão de marcos alemães e hoje são quinhentos mil euros. O doador não deseja nenhum monumento, e só pequenas plaquinhas de alumínio revelam que esta ou aquela casa foi reabilitada com a ajuda do donativo para o centro histórico. Os habitantes de Görlitz esperam, claro, que o doador ou a doadora continue por muito tempo de excelente saúde.

Pátio interior com adereço de filme
Num pátio interior salta à vista uma placa que, na verdade, não condiz nada com este cenário medieval. É o que resta de um cenário de filme. Todas as cenas do filme de Hollywood A Volta ao Mundo em 80 Dias com Jackie Chan passadas em Paris foram rodadas aqui. Hollywood ganhou gosto por Görlitz. O cenário é autêntico e precisa de poucas alterações. Görlitz serviu assim de cenário a muitos filmes, e por isso também se fala em Görlywood. O seu cenário sensacional, com edifícios renascentistas, construções barrocas ou casas da Gründerzeit, faz a cidade parecer um parque temático histórico, onde se pode recriar qualquer época. Para alegria dos location scouts – aquelas pessoas que andam à procura de locais de filmagem – no centro da cidade não há arquitetura moderna que possa perturbar a autenticidade. Filmes como «O Leitor» ou o já referido «A Volta ao Mundo em 80 Dias», «Sacanas sem Lei» ou a produção alemã «Goethe» foram rodados aqui, total ou parcialmente. Muitos habitantes ganham uns euros extra como figurantes. Imagino que seja muito emocionante.

Casas exemplarmente reabilitadas no Karpfengrund
De repente o Uwe para diante de uma casa que, na verdade, não dá nas vistas e pergunta-nos o que notamos nela. Olho com esforço para a casa, para descobrir o pormenor provavelmente interessantíssimo. Está construída de forma um pouco assimétrica, digo eu. «Olha melhor. O que notas nas janelas?» «Estão todas novas menos uma.» «E??» «Não está limpa.» Só à segunda se percebia. E logo o Uwe conta a história do Gropius (espero ter percebido bem o nome), um forreta conhecido em toda a cidade, à maneira do Ebenezer Scrooge do Conto de Natal de Charles Dickens. Era tão avarento que até para o próprio funeral deixou estipulado em quê e quanto dinheiro se havia de gastar. Para controlar isso, o Gropius assistiu ele próprio ao seu funeral, a espreitar da tal janela. Todos os que depois olharam por essa janela morreram pouco tempo depois, e por isso desde então ninguém voltou a fazê-lo e ela nunca mais foi limpa. Uma história arrepiante, à qual mais tarde se haviam de juntar outras. Mas primeiro seguimos pelo Karpfengrund, onde há casas muito parecidas com as do centro histórico da nossa cidade natal, até à Peterskirche, ou Igreja de São Pedro e São Paulo. Para essa ainda temos tempo mais tarde, digo ao Uwe.

A Waidhaus
Na rua íngreme que desce até ao Neisse salta à vista uma casa cinzenta de vários andares, a Waidhaus. Chama-se Waidhaus porque antigamente ali se armazenava pastel-dos-tintureiros (Waid), um corante. Mas é muito mais antiga do que parece, porque a partir da primeira metade do século XII fazia parte do castelo do senhor da terra e tinha também uma torre. Mas, como tanta coisa na Idade Média, a casa ardeu e, depois de reconstruída, foi usada como escola e como o tal armazém de pastel. Mais tarde foi até quartel de bombeiros. E agora acolhe o Centro de Formação de Görlitz para Artesanato e Conservação de Monumentos – que a propósito.

O Uwe mostra-nos uma pedra com duas sinalizações, uma para o Zittauer Jakobsweg em direção a Praga e outra para o Ökumenischer Pilgerweg, que agora queremos seguir durante 10 dias. Na verdade, amanhã de manhã teríamos de vir exatamente aqui, para partirmos mesmo da origem do caminho. Mas como já cá estamos, podemos certamente dispensá-lo. A etapa vai ser, de qualquer forma, das mais compridas, e ainda por cima com as Königshainer Berge pelo meio. Por isso contamos hoje isto como sinal de partida. E afinal hoje já andámos uns bons quilómetros. Atravessamos ainda o Neisse para a Polónia. É mesmo pouco espetacular e mal se nota que se está noutro país. É a Europa. E ainda bem. Aqui o Uwe chama-nos a atenção para um grande painel onde se explicam os vários caminhos que aqui se cruzam ou começam.

«Casa de passagem» barroca com dois pátios, segundo o modelo de Leipzig
De volta ao lado alemão, infelizmente chega a hora de nos despedirmos do Uwe. Tem de voltar à Câmara para a contagem dos boletins de voto. Mas antes leva-nos, passando por magníficas casas barrocas na Neißestraße, mais uma vez à Brüderstraße, à fonte de São Jorge, e conta-nos a história do Klötzelmönch, uma história arrepiante e triste de uma donzela que é assassinada por um monge (o tal Klötzelmönch, o «monge dos tamancos», por causa do barulho que os seus tamancos de madeira fazem quando arrasta atrás de si, pelos cabelos, o cadáver de uma mulher) e enterrada na igreja. Mas o monge é reconhecido por um vagabundo que se deixara fechar na igreja para ter abrigo. O monge malvado foi condenado e emparedado vivo. Para cúmulo, e como se eu o tivesse adivinhado, muito mais tarde foi, claro, encontrado um esqueleto emparedado no convento franciscano. Quem quiser ouvir a história de forma muito mais pormenorizada, impressionante e assustadora, deve juntar-se a uma visita guiada noturna com atores, que se realiza regularmente. Para terminar vamos ainda à Verrätergasse, a Rua do Traidor, onde o Uwe nos conta porque é que o relógio da Dreifaltigkeitskirche está 7 minutos adiantado: em tempos, uns revoltosos tramaram um complô contra o conselho municipal e quiseram derrubá-lo. Um pequeno grupo de revoltosos estava dentro das muralhas e, à hora combinada, devia abrir as portas a um grupo armado maior. E, como acontece muitas vezes nestes complôs, há um traidor que conta tudo ao conselho. Este engendra um ardil e manda adiantar 7 minutos o relógio da torre da igreja. Do lado de fora das portas não se ouvia esse relógio. Batem, por exemplo, as nove, o grupo dentro da cidade sai do esconderijo e quer abrir as portas da cidade, mas é apanhado pelos soldados da cidade precisamente na Verrätergasse. Depois bastava esperar junto à porta da cidade pela verdadeira badalada da hora, abrir as portas e prender os restantes malfeitores. Todos foram condenados à morte, e desde então o relógio bate 7 minutos mais cedo do que os outros da cidade.

Réplica da Igreja do Santo Sepulcro
Com esta história e a recomendação de não deixarmos de visitar o Santo Sepulcro, despedimo-nos do Uwe com as palavras «Na vida, encontramo-nos sempre duas vezes». E assim espero que um dia nos voltemos a encontrar, seja num dos muitos caminhos, seja, melhor ainda, com ele como guia em Görlitz. Também já tenho um plano para isso, mas não o quero apanhar desprevenido contando-o aqui. Com o tempo, tudo se resolve.
Claro que vamos agora ao Santo Sepulcro, como o Uwe sugeriu. Há na Europa muitas réplicas deste lugar de peregrinação. O que esta de Görlitz tem de único é que o conjunto, composto pela capela de Adão e pela capela do Gólgota, pela Pedra da Unção e pelo próprio sepulcro, está aqui ao ar livre e não, como por exemplo em Jerusalém desde o imperador Constantino, dentro de um edifício. A estrutura e a história do sepulcro estão bastante bem explicadas neste link. Claro que peço um carimbo de peregrino do Santo Sepulcro e recebo-o prontamente.

São Pedro e São Paulo

O órgão do sol
Depois vamos a São Pedro e São Paulo. Orientando-nos pelos pontos cardeais, atravessamos vielas que ainda não tínhamos visto e que, de resto, certamente escapam às multidões de turistas. No fim espera-nos uma escada de ferro que sobe até à Ochsenbastei. Daqui tem-se uma bela vista sobre o Neisse e a ponte da cidade velha. Descrever a Peterskirche também seria demais para mim. Isso é feito muito melhor aqui. Também aqui recebemos um carimbo na nossa credencial. Como todas as igrejas góticas, São Pedro e São Paulo distingue-se pelas abóbadas altas que parecem flutuar sobre colunas esguias. Aqui, graças à pintura, vê-se muito bem a estrutura da abóbada de nervuras em rede. Um verdadeiro chamariz para os olhos e, sem dúvida, também um regalo para os ouvidos é o órgão do sol. Recebeu este nome por causa dos 18 sóis que se encontram na fachada, sobre os grupos de tubos. O órgão, construído de novo em 2004 segundo o modelo antigo (o velho estava completamente gasto – está exposto um teclado antigo), tira a sua plenitude e variedade de som de 6085 tubos, 89 registos, quatro teclados manuais e duas pedaleiras. O maior dos tubos mede 7,82 metros. Até os registos barrocos, capazes de imitar vozes de pássaros, foram restaurados. Um instrumento verdadeiramente imponente, que eu gostava muito de ouvir um dia a tocar. Mas agora, depois de tanta cultura, tenho sede. Mesmo ali perto, na margem do Neisse, a esplanada do restaurante mais oriental da Alemanha, a Vierradenmühle, avança sobre o rio como a proa de um navio. Ora, se isto não é motivo para procurarmos ali um lugar.

O restaurante mais oriental da Alemanha
Não temos de procurar muito, porque o tempo continua empenhado em tornar-se antipático. O dia inteiro já esteve cinzento. Ao menos ficou seco. E enquanto a Andrea se regala com um café e uma fatia de tarte de fruta, eu saboreio uma cerveja Landskron de Görlitz acabada de tirar. Mas assim sentados já está um frio que se sente, e por isso pagamos depressa e voltamos ao albergue. Lá já estão a passar as primeiras projeções das eleições para o Bundestag e volta a desenhar-se uma vitória da CDU. Ao país eu teria desejado uma maioria absoluta, para que finalmente alguma coisa mexesse e alguém assumisse a sério a responsabilidade, em vez de se deixar tudo arrastar ou de se atirar a culpa para o parceiro de coligação. Mas chega, televisão desligada. Volto ainda à cidade para apanhar umas fotografias noturnas. Nada fácil, porque o centro histórico de Görlitz é tão autêntico que também é bastante mal iluminado.






Mesmo assim consigo uns quantos instantâneos. O meu safari fotográfico acaba de repente quando a bateria vai abaixo e eu tinha deixado a bateria de reserva no albergue. Uma coisa destas põe-me fora de mim. Porque, de resto, em coisas muito menos importantes ando sempre com uma bateria de reserva carregada. De volta ao albergue, já não me apetece sair outra vez. E assim enfiamo-nos cedo nos sacos-cama.
Amanhã espera-nos uma etapa comprida e o tempo também não vai ser grande coisa: não vai chover sem parar, mas vai estar cinzento e a morrinhar. O anticiclone que o Serviço Meteorológico Alemão ainda nos tinha prometido na semana passada vai fazer-se esperar mais um bocado.
O dia das montanhas: Görlitz – Buchholz
Finalmente chegou a hora. Agora é que começa a sério. Mas antes, um elogio ao meu saco-cama novo: muito espaço para o meu corpo astral, temperatura agradável lá dentro, material agradável e ocupa pouco espaço na mochila. Na rotina da manhã já somos os dois profissionais. Bastam poucas palavras para organizar tudo. De qualquer forma, de manhã não somos de grandes conversas. Cada um tem a sua rotina. Normalmente sou o primeiro a levantar-me e a fazer a higiene, depois ponho o estojo de higiene debaixo do nariz da Andrea e, enquanto ela se arranja, eu arrumo os sacos-cama e preparo as garrafas de água. Sozinho num caminho destes, não me faria falta só ela, mas também estes gestos automatizados.

Pequeno-almoço na Stadtmission
O ar sai a assobiar do prático saco de compressão com as minhas coisas quando o enrolo. É um barulho que não quero impor de manhã aos outros peregrinos num dormitório bem cheio, como os que se conhecem dos caminhos espanhóis. Por isso, nesses casos faço-o sempre já na véspera, à noite. Aqui na Alemanha não é preciso temer olhares de reprovação de olhos ensonados de peregrinos. Como tantas vezes, estamos sozinhos, e ontem também não consegui ver ninguém na cidade que se parecesse minimamente com um peregrino ou caminhante. Felizmente, hoje não temos de nos preocupar com o pequeno-almoço. Um andar abaixo de nós já está na mesa. Disso eu tinha a certeza, porque já tinha ouvido movimento na casa antes de nos levantarmos.
E que mesa posta! «Podem levar alguma coisa para o caminho, à vontade.» Não é preciso dizerem-nos duas vezes, e embrulho-nos dois pãezinhos recheados. Para adiantar já: carrego-os até ao fim da etapa e servem-nos de jantar. Gosto destes pãezinhos «amadurecidos», que tiveram o dia inteiro para absorver o aroma do recheio. Já em criança era assim, quando ia buscar o meu pai ao trabalho e ele tirava as sandes da pasta para mas dar. Tinham um sabor muito especial, difícil de descrever: uma mistura do couro daquela pasta, do papel vegetal e dos processos que ele andava a carregar. Difícil de imaginar? Para mim, porém, é uma bela recordação de infância. Aliás, há sabores, aromas ou cheiros que me transportam imediatamente para episódios da minha infância.

À chuva a caminho de Ebersbach
Mas voltemos a Görlitz. Uma despedida rápida e um agradecimento à senhora da casa, e já estamos na rua. Ah, porcaria! Está a chover. Nenhum de nós tinha ainda olhado lá para fora, ou não tínhamos reparado. Enfim, os casacos impermeáveis já os temos vestidos, por isso podemos pôr-nos a caminho sem demora. O Uwe tinha-nos descrito o caminho bastante bem na véspera e temos pouca dificuldade em encontrar a saída da cidade. Pena que Görlitz se despeça de nós com este tempo. Com sol, até o troço mais aborrecido ganha os seus encantos. Nós, porém, vamos sempre a subir debaixo de chuviscos (ou parece apenas, porque as pernas ainda não estão bem com vontade), passando pelo hospital, até ao limite da cidade. Aí deixamos finalmente a estrada movimentada, virando à esquerda para um caminho rural, só para pouco depois voltarmos a dar com ela. Mas nada disso é problema, porque em breve estamos numa ciclovia solitária, cujo asfalto escorre de humidade. É que agora chove ainda com mais força.

A vista aqui prometida hoje não acontece
As lentes dos meus óculos só permitem uma visão desfocada do que me rodeia. De qualquer forma, com este tempo miserável não se consegue ver longe. Ao menos a sinalização é boa, de modo que não sinto necessidade de recorrer ao GPS. Já tenho que fazer para manter a máquina fotográfica mais ou menos seca. É que, apesar da pouca vista, aqui e ali tiro umas fotografias para ajudar a memória e para experimentar o GPS. Esta máquina grava o percurso e estou curioso para ver como isso afeta a duração da bateria. Na falta de outras distrações, é nestas coisas que penso enquanto caminho. Sobre o sentido ou o disparate de andar por aí a arrastar-me com uma mochila pesada às costas, num tempo em que nem o meu cão eu poria na rua, prefiro não pensar neste momento. Isso só faria o meu humor descer ainda mais para perto de zero. Sim, confesso: sou com muito gosto um peregrino de bom tempo. E agora estou mal-humorado e irritado com as boas previsões do serviço meteorológico alemão da semana passada, que não se cumpriram. Dizem ter calculado a subida da temperatura daqui a 100 anos, mas nem são capazes de prever com fiabilidade os próximos cinco dias – inacreditável! Precisamente aqui, onde uma placa à beira do caminho me promete uma bela vista sobre a Landeskrone (o monte emblemático de Görlitz) e sobre as montanhas Jizera, ao longe a sudeste, não se vê absolutamente nada a não ser nuvens cinzentas das quais chuvisca sem parar. Porque é que estou sempre a repetir isto? Porque agora estou rabugento. Mas vejamos o lado positivo: podiam estar a chover bolhas. As curtas pausas em que deixa de chuviscar ao menos deixam as pernas das minhas calças secar outra vez.

Ebersbach, município de Vierkirchen

Com todo o meu ressentimento, quase nem reparo na rapidez com que chegamos a Ebersbach. Não admira, já que vou quase sempre a olhar para baixo – como já resmunguei («geningelt», em saxão, quer dizer queixar-se ou ter pena de si próprio) por causa das lentes embaciadas. A igreja, lindamente restaurada e a brilhar num amarelo vivo no cinzento do dia, deixamo-la à esquerda no seu outeiro, o que não é dito em sentido depreciativo. O portão está simplesmente fechado. E assim seguimos por esta povoação bastante bonita, atravessando uma pequena ponte onde também descubro uns motivos fotográficos que valem a pena. Pouco depois, nem 200 metros mais à frente, ouvimos um «Buen Camino». Quase me assusto, mas fico sobretudo muito contente – um companheiro de sofrimento! Está debaixo do alpendre de um antigo supermercado Konsum, que agora só serve – ou pelo menos ainda serve – de abrigo para peregrinos molhados. É o Andreas* de Kassel (*nome e localidade alterados), que também partiu hoje de Görlitz. Um breve de onde e para onde, e já estamos no assunto, e cada um tem a sensação de conhecer o outro há muito. É assim num caminho com o mesmo destino. Ele também nos fala de duas mulheres que encontrou em Görlitz. Uma delas viríamos a conhecer muito mais tarde. Está a tomar o segundo pequeno-almoço. Esperamos que acabe e seguimos juntos. Vamos em direção às Königshainer Berge. São a cordilheira mais pequena da Alemanha, mas mesmo assim têm que se lhe diga.

Uma aberta de sol diante da Landeskrone

O caminho para as Königshainer Berge
Mas antes de chegarmos à serra, sempre conseguimos avistar uns raios de sol. Como um projetor celestial, o sol pinta manchas de luz interessantes na paisagem. Depressa a máquina cá para fora, antes que o espetáculo acabe. Ao continuarmos, reparo que o Andreas* tem uma passada um pouco irregular. Usa umas sapatilhas de corrida azul-vivo que pelos vistos lhe estão a dar problemas. «Se alguma coisa te aperta nos pés, é melhor veres logo, antes que se forme uma bolha», digo-lhe. Ele concorda e depressa encontramos, junto a uma torre de caça, um sítio jeitoso para tirar sapatos e meias. «Trago sempre fita kinesio. Aguenta bem e previne bolhas nos sítios que roçam.» Rapidamente localizamos o ponto crítico. São as palmilhas dos sapatos que causam as dores, e trato-lhe as plantas dos pés avermelhadas colando-lhes por cima a minha fita azul. Espero que não seja tarde demais. Também não consigo resistir a fazer um comentário sobre se a escolha do calçado não terá sido um pouco ousada. O Andreas* disse que queria experimentar os sapatos. Ele próprio trabalha numa loja de outdoor e não me parece que seja a primeira vez que anda a pé. Tanto mais incompreensível é para mim a escolha destes sapatos. Os caminhos ficam mais enlameados a cada gota que cai do céu, e o asfalto do início há muito deu lugar a caminhos rurais pedregosos com muitas poças traiçoeiras. E agora ainda começa a subida às Königshainer Berge.

A subida
O caminho fica cada vez mais íngreme e a minha respiração cada vez mais pesada. «Só mais um bocadinho e estamos no Hochstein. Lá há uma Baude, onde podemos comer e beber alguma coisa» – são estas as minhas palavras de ânimo, que soam algo ofegantes. Com a Andrea não me preocupo. Mas o Andreas* anda cada vez com mais dificuldade. Também tosse muito e, quando lhe pergunto como está, responde que acabou de sair de uma bronquite – não são propriamente as melhores condições para fazer um caminho de peregrinação, ainda por cima com este tempo. «Mais umas centenas de metros por uma estrada de asfalto íngreme e devemos estar na Baude», tranquilizo-o.

O rochedo do Hochstein

A Hochsteinbaude
Fantasmagórica, surge do nevoeiro a maciça formação rochosa no cimo do Hochstein. Primeiro julgámos que era um edifício. Mas depois vi a rocha erodida, com sulcos transversais. Só atrás dela aparece a Hochsteinbaude, felizmente aberta. Das rochas, a que se pode subir por escadas de ferro, há certamente uma vista fantástica. «Haveria» é o que eu devia ter escrito aqui, porque a subida teria sido completamente inútil. Encharcados e agora também cheios de frio, entramos na Baude e somos recebidos com simpatia. Somos os únicos clientes e podemos escolher a mesa. Para poupar caminhos à patroa, sentamo-nos não muito longe do balcão. Uma cerveja, depois desta subida, mereci-a de certeza, e o Andreas* também pede uma. Embora para ele um chá para a tosse fosse certamente melhor. Na ementa há, de propósito para nós, uma sopa do peregrino, e concordamos que uma sopa de legumes é mesmo o que nos faz falta agora. Qualquer outra coisa pesaria demasiado no estômago, porque ainda nem fizemos metade do caminho de hoje. O Andreas* é da opinião de que, depois da descida do Hochstein, voltaremos a subir à mesma altitude. Eu, porém, estou convencido de que ele se engana.

Arnsdorf à vista
Felizmente, tenho razão. Por caminhos escorregadios e molhados, desce-se agora a pique pela floresta encharcada. Ao longe ouve-se a autoestrada A4, que passa num túnel por baixo das Königshainer Berge. Depois, finalmente, saímos da floresta, onde os chuviscos se juntam em gotas grandes que nos estão sempre a cair na cabeça. Atrás de um grande campo de milho surge Arnsdorf. Aqui há um albergue, mas para nós é demasiado cedo no caminho de hoje. Agora já estamos molhados de qualquer maneira, e quem sabe como estará amanhã. Os pés ainda estão bem e, por isso, decidimos, como planeado, não ficar aqui no albergue. Para o Andreas* talvez tivesse sido melhor. A tosse dele está a piorar e, para ser sincero, estou um pouco apreensivo quanto à noite que aí vem. A ressonadores já me habituei (eu sei o que a Andrea vai dizer agora – quem tem telhados de vidro e tal!), mas a tosse dele roubar-nos-ia o descanso.

Igreja de Arnsdorf
na igreja de Arnsdorf

Castelo de água de Döbschütz
Antes de sairmos de Arnsdorf, porém, ainda visitamos a igreja, que está aberta e onde sobressaem sobretudo o teto lindamente pintado e os antigos frescos postos a descoberto na abside, que são algo de especial. O especial na povoação seguinte, Döbschütz, é o castelo de água, que, muito romântico, escondido num bosque à saída da localidade e rodeado por um fosso, aguarda restauro. Pelo caminho do dique, ao longo do Schwarzer Schöps, que serpenteia de forma selvagem, chegamos a Melaune. À entrada da povoação salta à vista uma grande superfície asfaltada, rodeada por uma barreira de madeira – um ringue de patinagem no gelo. À frente há uma pista de bowling ao ar livre, coberta, especialmente interessante para a Andrea, que joga bowling. Aqui nesta terra parece que as pessoas são mesmo muito ativas. Debaixo do telheiro de um grande quartel de bombeiros fazemos uma curta pausa para recuperar o fôlego. «Já não falta muito para Buchholz, talvez uns cinco, seis quilómetros, e conseguimos», tento animar-nos, porque está outra vez a começar a chover.

O albergue de Melaune

O caminho sem fim junto às turbinas eólicas
Também em Melaune há um albergue de peregrinos, pelo qual, no entanto, igualmente passamos ao lado. O caminho que se segue é bastante duro. Depois de aguentarmos um curto troço de estrada nacional muito movimentada, viramos à esquerda para um caminho agrícola de betão que atravessa terreno aberto, passando por várias turbinas eólicas. Quem já peregrinou no ÖP antes de Freyburg / Unstrut, pela cumeada antes da Göhle, de turbina em turbina, sabe a distância a que aquelas coisas estão umas das outras. Parece que alguém anda sempre a afastar a última. O mesmo aqui, neste caminho de betão ventoso que parece não ter fim. Uma grande cruz de madeira à beira do caminho explica-nos que, há muitos anos, se pretendia construir aqui um aterro de resíduos perigosos. Pelos vistos os protestos tiveram êxito, porque, a não ser campos, não se vê aqui mais nada em lado nenhum. Só já se consegue distinguir a torre da igreja de Buchholz. Ou será ainda a de Tetta? Pouco depois percebo. Estamos só em Tetta. Aqui, tão perto de Buchholz, deveria haver ainda um sítio para fazer compras. Pergunto a um morador, antes que ele volte a desaparecer. Mas ele só me fala de uma loja de bebidas em Buchholz que também vende outros artigos de uso diário. Na verdade, isso chega-nos e por isso pomo-nos a caminho para despachar o último troço até Buchholz. As marcas do caminho levam-nos de um lado para o outro pela povoação, ao longo de dois grandes lagos.

O albergue de Buchholz
Agora já se distingue também a torre da igreja de Buchholz e sei que estamos quase a chegar. Os dois atrás de mim, porém, olham como se eu os quisesse enganar e estivesse a dar uma volta extra. Mesmo em frente à igreja há uma casa restaurada muito bonita, a antiga escola da terra. Descubro uma placa na janela ao lado da porta, onde nos dão as boas-vindas e nos dizem como e onde obter a chave do albergue. Escolho o método mais simples, indo duas casas mais à frente e tocando à campainha. Hmm, ninguém. Mas lá em cima abre-se uma janela, e a mulher que espreita confirma-me que não está ninguém que me possa deixar entrar no albergue. Portanto, de volta à casa. Ligo outra vez à senhora Leubner, com quem já tinha falado ao telefone de manhã. Hmmm… atendedor de chamadas…. Desligo antes de soar o bip. Não gosto muito de falar com máquinas. Depois descubro ainda um segundo número, para o qual consigo falar com alguém. Pouco depois, uma mulher vem de bicicleta direitinha a nós. O que queremos, qualquer um percebe, e por isso deixa-nos entrar na casa sem mais rodeios.

No albergue de Buchholz
E a casa é um espanto! Tudo novo e mobilado de forma moderna, chuveiros novos e limpos, uma cozinha grande com o frigorífico cheio, sopas instantâneas e grades de bebidas (água, refrigerante, cerveja). Até vinho tinto e espumante há no armário. «O que consumirem – a caixa está ali ao fundo.» Isto é de cair o queixo, e agora já não preciso de ir procurar a loja de bebidas na terra. Até descubro uma campânula com a inscrição «bolo caseiro para os nossos hóspedes». A minha preocupação com a tosse do Andreas* também se dissipa depressa, porque há três quartos, e nós os dois ficamos num que, pelos vistos, normalmente serve de escritório. A mobília, o computador pronto a usar em cima da secretária e o divã onde estendemos os sacos-cama, tudo me dá a impressão de um quarto que o filho da casa acabou de desocupar para nós. Há ali muitos utensílios, livros e papéis que, ainda assim, denunciam que este espaço é intensamente usado pela paróquia. O Andreas* fica no quarto ao lado do nosso. Está sentado na cama, imóvel, a olhar para a parede. Parece completamente esgotado, e só à noite volta a estar em condições de conversar.

No albergue de Buchholz

O nosso quarto

Um belo fogão antigo no albergue
Uma escada de madeira leva a um sótão lindamente aproveitado, onde certamente caberiam mais 6 peregrinos em colchões. Tudo está decorado com carinho e equipado de forma moderna, mesmo para uma pessoa se sentir bem. É o que eu faço agora. Não vejo motivo nenhum para voltar a sair de casa com este tempo. Depois do duche, há uma cervejinha na cozinha e comemos os pãezinhos recheados que trouxemos de manhã, no estado já descrito. Estaladiços não estão – mas estão bem impregnados e moles. Mais tarde, o Andreas*, já desperto da sua letargia, também vem à cozinha preparar o jantar. E o que ele tira da mochila deixa-me espantado. Ali, ao lado do fogão elétrico encastrado, está o seu fogareiro a gás de campismo, e ele prepara massa a partir de uma espécie de ração de sobrevivência liofilizada, aqueles sacos de comida desidratada que se conhecem das lojas de outdoor. Ou tem uma missão de investigação do patrão, ou tem uma ideia completamente errada do Leste da Alemanha. Nem me atrevo a perguntar, mas mesmo assim faço um comentário brincalhão, que espero que não leve a mal. É mesmo um tipo simpático, com quem ainda conversamos animadamente antes de irmos para a cama. Mas, de certa forma, preocupa-me se ele aguentará o dia seguinte. A tosse ainda está bastante má. Os pés acabaram por ganhar bolhas e isso não vai melhorar com a fita que lhe dou da minha. E a mochila dele leva provavelmente a comida para o caminho inteiro pelo Leste selvagem, e tem o peso correspondente. Pois, e isto com aqueles sapatos – fico com os meus pensamentos, mas não o quero confrontar com eles e deixá-lo inseguro. A certa altura chega a hora do saco-cama. O vinho e o espumante deixamo-los no armário. Depois deste dia das montanhas, estamos cansados que chegue sem eles.
Boa noite e até amanhã.*Por precaução, alterei o nome e a localidade do nosso companheiro nesta etapa, porque não sei se ele concorda que o mencione aqui.
O dia da mostarda: Buchholz – Bautzen
Porque escolhi este título? Hoje vamos para Bautzen. E quem gosta de comer mostarda a sério e prefere boa mostarda com muita tradição dificilmente escapa à «Bautzner Senf». Eu sei, para lá do «equador da Weißwurst» provavelmente pouca gente a conhece. Mas lá também se prefere a mostarda doce. Aqui na Saxónia gosta-se mais dela picante.

A igreja de Buchholz
A noite foi reparadora e tranquila. Acho que nem ressonei. Pelo menos a garganta não está seca. Portanto, a Andrea também teve uma noite sossegada. Depois do ritual matinal habitual, ainda tomamos o pequeno-almoço na cozinha. Ainda tenho na mochila uns pãezinhos de baguete meio borrachudos e, com manteiga e patê de fígado, molhados no café, sabem bastante bem e o maxilar não tem tanto trabalho. Pontualmente às oito horas chega a senhora Leubner, que vai connosco à pequena igreja em frente para nos dar uma bênção de peregrino. Põe-nos um livro de cânticos nas mãos. «Isto vai ser difícil», digo sem rodeios. Claro que a senhora Leubner sabe que não são só cristãos que fazem este caminho. E assim facilita-nos a vida nesta manhã. Escolheu um cântico cuja melodia até nós conhecemos. Foi sobre essa melodia que Cat Stevens fez o seu êxito mundial Morning has broken. Enquanto o Andreas* canta a letra com bastante segurança, nós pelo menos trauteamos baixinho e ficamos muito comovidos com o ambiente.
Com as seguintes palavras, a senhora Leubner manda-nos para o dia:
Fica hoje perto de mim
Um novo dia nasceu. Obrigado pelo sono e pelo descanso,
fica hoje perto de mim em tudo o que eu fizer.
Não sei o que virá, se plenitude, se vazio.
Sê Tu o bom pastor no que é belo e no que é difícil.
Seja a Tua palavra a pedra de toque do essencial e do importante,
a medida do grande e do pequeno, do errado e do certo.
Ajuda-me, onde eu puder, a ousar a obra inteira
e, se a fraqueza me tomar, a dizer-lhe também que sim.
Deste-me força para viver também este dia.
Deixa-me, à noite, devolvê-lo a Ti com alegria.
Bonito, não é? Porque é que ainda consigo escrever este texto? Levei para casa, bem guardado, o papelinho que a senhora Leubner nos deu. Na igreja, mostra-nos ainda a simpática exposição de fotografia de uma mulher que, da sua varanda, observou e fotografou um casal de esquilos ao longo do ano. Tinha pendurado uma caixa-ninho, que os animais adotaram. Assim teve uma visão única do berçário destes habitantes das árvores. Encheu duas salas com fotografias e peças muito bonitas. Mas depois chega a hora de nos despedirmos do simpático albergue e da senhora Leubner, que naturalmente nos deseja um bom caminho. Logo à saída da povoação, depois de uma pequena subida, despedimo-nos também do Andreas*, que hoje quer ir um pouco mais devagar e talvez não tão longe. Para manter a possibilidade de conseguir terminar o seu caminho, é certamente uma boa decisão. A longo prazo, não se pode adaptar o próprio ritmo de marcha ao de outra pessoa. Cada um tem de encontrar o seu. E o do Andreas* hoje era simplesmente um pouco mais lento do que o nosso. Até onde ele chegou no caminho, ou se ainda anda por aí, não sabemos, porque até agora ainda não tivemos contacto com ele, apesar de eu já lhe ter mandado um e-mail. Mesmo assim, digo-lhe a minha frase de sempre nestas situações, que não pretende ser uma ameaça: «Na vida, as pessoas encontram-se sempre duas vezes.» Às vezes é preciso mais coragem para parar no sítio certo do que para continuar a sofrer e, com isso, talvez ainda arruinar a saúde. Desejo ao Andreas* essa coragem e a sabedoria para tomar a decisão certa.

A câmara municipal de Weißenberg
Assim, voltamos a estar sozinhos. No carreiro estreito que se chama Totenweg, depressa perdemos de vista, atrás de nós, a companhia que tínhamos até agora. Hoje o tempo também não está melhor do que ontem e, por isso, passamos a vida a pôr e a tirar o capuz. A povoação seguinte é Weißenberg, uma pequena cidade com uma câmara municipal um pouco sobredimensionada. Por causa da chuva, aqui só tiro uma fotografia, e depois temos trabalho para encontrar o traçado certo. Pela primeira vez no öP tenho a sensação de estar no caminho errado. Depois da descida íngreme e escorregadia a partir da praça do mercado, damos uma grande volta à cidade velha, de modo que tenho a sensação de estar a voltar para trás. Mas, ao olhar para o trilho de GPS no meu Garmin, tenho de dar a mão à palmatória. A direção geral, oeste, está certa.

Não falhem o desvio!
Saímos da cidade por um antigo aterro ferroviário e nem damos conta de onde é que na verdade a deixámos. Grandes placas a indicar um Mühlenweg quase tapam a marca do öP. Mas lembro-me logo da descrição no guia do peregrino, onde se diz que, quando se está em cima do viaduto, já se foi longe demais. E assim, antes do dito viaduto, descemos do aterro para um caminho rural largo. Este leva-nos diretamente à entrada da Gröditzer Skala. É uma espécie de desfiladeiro fluvial, onde o Löbauer Wasser escavou o terreno à sua volta uns 15 metros de profundidade. O rio, com uns 10 metros de largura, serpenteia pelo vale, e muitos caminhos acompanham-no pelas margens.

Gröditzer Skala – ponte sobre o Löbauer Wasser
Depois da descida íngreme, o primeiro desafio é atravessar o rio por uma ponte com um ar um tanto aventureiro. É feita de um único tronco de árvore, ligeiramente aplanado na parte de cima com uma motosserra. Dos lados há um corrimão de ramos tortos, por trabalhar. O conjunto, pelo menos visto de longe, tem um ar um bocado «lawede», como dizemos nós, os saxões. Só olhando melhor percebo que o construtor pensou bem no assunto e que, pelos vistos, conhece o ofício. O corrimão revela-se mais firme do que eu pensava e, assim, podemos agarrar-nos a ele. E é bem preciso, porque o tronco está muito escorregadio por causa da chuva, do desgaste do tempo e das folhas caídas por cima. Que caminho se escolhe depois, rio abaixo, é na verdade indiferente, porque todos seguem ao longo do rio. Convém, no entanto, não subir cedo demais para a direita, para fora do desfiladeiro, porque a autoestrada A4 passa muito perto e até aqui em baixo ainda se ouve nitidamente.

Na Gröditzer Skala
Escolhemos um caminho que segue mesmo junto à margem do Löbauer Wasser. Assim temos sempre à nossa frente belos quadros que, mesmo com este tempo horrível, oferecem um contraste entre o verde exuberante, que aqui ainda se encontra em pleno outono, e o curso sinuoso do rio. Pouco depois chegamos a uma grande clareira. O vale abre-se e vemos, lá em cima, na orla da floresta, o castelo de Gröditz a espreitar por cima das copas das árvores. «Temos de subir até ali!», grito à Andrea, que vai um pouco à frente, porque eu estava mais uma vez ocupado com a máquina fotográfica. «Mas as conchas apontam aqui por baixo», diz a Andrea. Portanto, fazemos como os pais e as mães do caminho quiseram. Ficamos cá em baixo. O vale volta a estreitar-se e, do lado direito, aparecem até paredes de rocha íngremes.

O castelo de Gröditz
Depois saímos de vez e vemos as primeiras casas de Gröditz. Mas a subida ao castelo não nos é poupada na mesma. A arfar, tenho até de parar uma vez para recuperar o fôlego. Pois, a minha forma física ainda não está nas melhores condições. Chegados lá acima, vamos até ao castelo. Aqui também há um albergue de peregrinos. Em frente descobrimos um baldaquino de madeira branco, com uns bancos e uma mesa por baixo. Um belo sítio para o segundo pequeno-almoço, digo eu, e a mochila já está no chão. De alguma forma ainda não estou muito satisfeito com o ajuste das alças. Debaixo do arco costal direito sinto, há já algum tempo, uma dor aguda, que já tinha tido no caminho em Mecklenburg.

Umgebindehaus em Gröditz (típica da Alta Lusácia)
Se é da mochila, vou experimentar em casa, fazendo uma caminhada mais longa com a minha velha Deuter. Claro que também pode ser simplesmente por ter engordado demais. Seja como for, a barriga é um incómodo. É que o cinto de anca não sabe bem para onde ir; normalmente, ao fim de umas centenas de metros, escorrega para baixo da barriga e ali fica demasiado largo. Assim, carrego todo o peso nos ombros, o que não é muito bom. Mesmo que sejam só 8 a 9 quilos, com o tempo também se fazem sentir no corpo. Mas comer também é importante, para o corpo ter energia. Por isso, dou mais uma boa dentada, bebo mais um gole da garrafa de água e lá seguimos.

O caminho para Wurschen
O caminho seguinte até Wurschen não tem nada de especial. Primeiro vamos por um caminho agrícola de betão e depois um bocado pela estrada nacional, antes de voltarmos a um caminho rural. Em Wurschen é fácil perder-se. Primeiro é o acesso ao parque privado do castelo, um pouco escondido atrás de uma entrada, e depois um traçado em ziguezague, primeiro para a direita para a estrada e logo a seguir outra vez para a esquerda, primeiro para uma rua secundária que depois passa a caminho rural e sai da povoação.

Parque e castelo de água em Wurschen
O caminho junto ao castelo de água passa à direita dele. Numa grande curva atravessamos o enorme e bem cuidado parque do castelo, onde há a toda a hora placas a dizer que o terreno é propriedade privada e que é proibido pisar os relvados. Depois do dito ziguezague, sobe-se um pouco. Lá em cima, fica-se cerca de um quilómetro depois de Wurschen, debaixo de uma grande árvore com um banco. Mais uma oportunidade bem-vinda para tirar a mochila por uns minutos. Depois disso, a dor aguda desaparece durante uns quilómetros. Só umas fotografias para trás, para Wurschen, e para a frente, para Drehsa, e lá seguimos.

Vista sobre Drehsa
Ao olhar para Drehsa, salta à vista uma torre alta que sobressai da povoação. É uma torre de água que pertence ao castelo de Drehsa. A torre fica junto à casa senhorial, com ar de palácio e lindamente restaurada; atrás estão os restos da quinta, ainda por restaurar. No tempo da RDA, a propriedade albergava um lar de crianças. A família von Salza zu Lichtenau comprou a propriedade e o castelo e está atualmente a restaurar o conjunto com grande investimento. Pode subir-se à torre, mas hoje não temos motivo para isso. É que o tempo continua a estragar-nos a vista. Depois de Drehsa, mais um troço muito bonito por um caminho rural antiquíssimo, que atravessa um pequeno bosque no cimo de um monte.

Abrigo depois de Drehsa
No meio do bosque, já na descida, alguém construiu um abrigo onde, em caso de necessidade, também se pode pernoitar. Esperamos aqui que o aguaceiro passe e pomos as pernas para cima. Quando mais tarde saímos do bosque, vemos pela primeira vez as torres de Bautzen. Ainda bem longe, e pelo mapa sei que o traçado não é o mais direto. Antes de Waditz damos com a linha de comboio pela qual ainda no domingo tínhamos ido para Görlitz. Seguimos um bom bocado ao longo dela, sem que passe um único comboio. Passando por Kubschütz, Baschütz e Jenkwitz, tem-se muitas vezes a impressão de estar a afastar-se de Bautzen.

Pausa em Kubschütz
Em Kubschütz, um banco bem arranjado convida a descansar, e eu não me faço rogado. Agora só falta um último esforço. Quando, perto de Auritz, damos com a B6, ficamos bem contentes por não termos tido de caminhar ao longo dela mais cedo. E assim os pequenos desvios tão perto da cidade acabaram por ser bastante úteis. A entrada em Bautzen faz-se sempre ao longo da estrada federal muito movimentada, um suplício quando se passou o dia inteiro na natureza. Tencionamos ir para a casa paroquial de St. Petri e dormir no quarto de peregrinos que lá existe. A chave recebemo-la na padaria que fica, em direção ao centro, atrás da casa paroquial. Para chegar à casa paroquial, é preciso entrar pelo arco da Töpferstraße 23 e seguir até ao pátio das traseiras.

Alojamento de peregrinos na casa paroquial de St. Petri, em Bautzen
Aqui, a grande casa branca e amarela não passa despercebida. Só depois de subirmos as escadas até ao 2.º andar é que reparamos que também há um elevador. Depois da etapa de hoje, tê-lo-ia usado sem escrúpulos. Caso alguém depois de nós também queira perder os escrúpulos: o acesso ao elevador é do lado esquerdo da casa. A chave recebida na padaria serve na antecâmara envidraçada. No quarto de peregrinos há 6 beliches. Se se avisar com antecedência, provavelmente também têm roupa de cama. É que havia uma cama assim preparada. Nós, porém, usamos os nossos sacos-cama novos e aconchegantes. No alojamento de peregrinos há também uma casa de banho, um duche e uma pequena cozinha. Estamos a instalar-nos quando batem à porta. Entra o Christoph, de Berlim. O sotaque dele, porém, denuncia que antigamente era de outro sítio. Mas não o quero importunar com mais perguntas.

A antiga Wasserkunst na margem do Spree

A Schlossstraße e os seus bares
Mal passamos do habitual de onde e para onde, até porque pouco depois saímos de casa para dar uma volta pela cidade. A última vez que estive em Bautzen foi em 1976 e quase não a reconheço. Casas restauradas com carinho sucedem-se umas às outras. E que Bautzen tenha tantas torres, disso não me lembro de maneira nenhuma. Atravessamos a praça do mercado até à Wasserkunst, de onde se tem uma bela vista sobre o vale do Spree, e depois ainda passamos pela Mühltor até ao Ortenburg, para voltarmos ao centro pela Schlossstraße. A catedral de São Pedro está infelizmente fechada. Teríamos gostado de a ver. Alguns restaurantes eternizaram a mostarda no nome. Nos restantes há pelo menos um prato em que a mostarda tem papel principal. É o que se espera de Bautzen. Os baldes de mostarda azuis e brancos que aqui estão na rua não estão lá porque se espera uma entrega de mercadoria, mas como publicidade a uma loja de mostarda. Muita coisa aqui gira à volta desta pasta amarela e picante. Afinal, o que é a mostarda, um condimento, uma pasta de tempero? Seja como for, para mim a mostarda tem de subir um bocadinho ao nariz quando se come pura. Na nossa cozinha é indispensável.

O primeiro restaurante de mostarda de Bautzen e, atrás, a catedral de São Pedro
Das muitas variedades que entretanto também a «Bautzner» oferece, a minha preferida é a meio picante. Por isso, procuramos um restaurante com pratos de mostarda na ementa. Não temos de procurar muito. Mesmo na praça do mercado há o Surprise, uma mistura de café, pizaria, cervejaria, bar e restaurante. Aqui de certeza que encontramos alguma coisa. E o que encontrámos foi uma frigideira de carne às tiras num molho de mel e mostarda – um espanto!! Mas, mais uma vez, os olhos foram maiores do que a barriga. E assim tenho bastante trabalho para comer tudo. Mas: «Ergue o copo e sorve o resto, que deixar sobras não é do seu jeito.», para citar Wilhelm Busch em «Hans Huckebein der Unglücksrabe». Se calhar tenho demasiado em cima das costelas por limpar sempre o prato tão bem. Lá fora, entretanto, escureceu e, quando saímos do restaurante, está claro que outra vez a chover.

A Reichsturm ao fim do dia
Apesar disso, ainda tiro depressa umas fotografias noturnas da cidade. De volta ao alojamento de peregrinos, pouco depois chega também o Christoph da sua volta pela cidade; também ele jantou no «Surprise». Pena não nos termos encontrado. Assim, fica-se por um encontro breve. É que no dia seguinte ele desaparece a uma velocidade infernal. As etapas que planeou também não correspondem às nossas ideias. Na esperança de melhor tempo, vamos dormir cedo.
Amanhã, pela primeira vez, desviamo-nos dos nossos planos. É que não vamos, como planeado, até Panschwitz-Kuckau, onde há muito tempo vivi dois anos num lar de aprendizes. Em vez disso, terminamos a etapa 3 quilómetros antes, em Crostwitz, no oásis de peregrinos de Monika Gerdes. É uma dica do Uwe, que seguimos com gosto. E viria a revelar-se muito acertada: passamos uma noite que tão depressa não vamos esquecer.
(*) Nome alterado
O dia dos encontros: Bautzen – Crostwitz

Uma luz ao fundo do túnel pela manhã: abertas entre as nuvens
A primeira coisa que faço esta manhã é ir à janela. Mais um dia de chuva seria difícil de suportar. Mas eis que surge uma esperança. Entre alguns bancos de nevoeiro, aqui e ali espreita um pouco de azul no céu. Isso dá ânimo, e depois destes dois dias já ficamos gratos por um bocadinho de sol. Num instante está tudo arrumado e despedimo-nos do Christoph. O nosso pequeno-almoço, normalmente bastante improvisado, hoje podemos dispensá-lo. Afinal, numa cidade relativamente grande como Bautzen há de haver uma padaria onde possamos tomar o pequeno-almoço. Hoje temos muito tempo, porque vamos encurtar um pouco a etapa. Como já escrevi no post anterior, o Uwe, de Görlitz, aconselhou-nos a ficar em Crostwitz, no oásis para peregrinos da Monika Gerdes, e não seguir, como estava planeado, os 3 quilómetros até Panschwitz-Kuckau.

A manhã em Bautzen
Entregamos então a nossa chave na padaria. Mas é impossível tomar ali um café e comer alguma coisa. Se, além de nós, entrarem mais dois clientes, a loja fica cheia. E aí as nossas mochilas teriam de ir para a rua. Por isso procuramos outra coisa. Na Reichstraße vemos uma padaria onde primeiro temos de nos orientar, porque ali é tudo self-service. Só há uma funcionária na caixa, que só vem cá à frente quando já juntámos qualquer coisa no tabuleiro e entramos na zona da caixa. Só falta mesmo um drive-in para carros, como na «tasca das caixinhas», como há pouco um amigo, para meu divertimento, descreveu o restaurante do grande «M». O que eu mais queria era sair dali e procurar uma padaria antiga e bonita, onde a farinha ainda se cola aos dedos da empregada e onde se vê que ela já anda de volta do forno pelo menos desde as 4 da manhã. Mas a comodidade vence, e um peregrino, como se sabe, é preguiçoso para andar. Pode parecer paradoxal. Mas há que evitar cada passo fora do caminho. Nunca se sabe o que ainda vem. E assim ficamos mesmo por ali, ganhamos a batalha contra a máquina de café e também encontramos alguma coisa para comer.

Bela vista matinal sobre o vale do Spree
Lá fora, a rua ganha manchas bem claras. Ao sol, vai secando aqui e ali. Ehhh, o sol resolve aparecer, ainda que viesse a ser apenas um breve intermezzo. Assim temos, porém, a oportunidade de ver noutra luz aquilo que ontem visitámos com tempo triste. Atravessamos então outra vez a praça do mercado até à Wasserkunst e contornamos a cidade velha ao longo das antigas muralhas, acima do Spree, antes de descermos, por trás do castelo, uma escadaria íngreme até ao rio. Atravessamos a ponte sobre o Spree e saímos da cidade passando por baixo da B96 e da autoestrada A4.

A cidade já ficou muito para trás
Pouco depois vemos a cidade das muitas torres como uma silhueta cinzenta atrás de nós. A autoestrada ali perto e os muitos veículos na estrada nacional irritam um pouco e perturbam o idílio matinal. Mas até somos cumprimentados de um carro pequeno que vem em sentido contrário. Como se veio a saber ao fim do dia, era a Monika Gerdes a cumprimentar os seus hóspedes da noite. Ela já sabia que vínhamos, porque eu tinha feito a reserva. A localidade de Salzenforst, que atravessamos agora e em cuja entrada se encontra uma grande instalação de reciclagem, revela-se uma bonita aldeia residencial para gente abastada que pode dar-se ao luxo de ter, fora de Bautzen, uma casa grande num terreno ainda maior – tudo muito simpático e muito engenhoso.

Pausa na paragem de autocarro de Oberuhna
Aqui e ali há gente a trabalhar e parece que foi lançado um concurso para ver quem tem o relvado e o jardim da frente mais bonito. O que vejo é um modelo de pequeno-burguesismo. Seguimos agora por um caminho agrícola solitário até Oberuhna. Mas afinal não estamos assim tão sozinhos, porque vêm na nossa direção dois rapazes que, sem margem para dúvidas, andam em peregrinação. O meu comentário escusado de que estavam a andar na direção errada devia tê-lo guardado para mim. Não é original nem espirituoso, e arrependo-me logo a seguir a dizê-lo. Mas o que sai da boca… não volta atrás, não é? Embora certamente já tenham ouvido esta piada várias vezes, o primeiro dos dois reage com calma.

Desvio depois de Oberuhna
O segundo vem um pouco arrastado, bastante atrás dele. São de Erfurt e escolheram precisamente esta direção. Como são dois, a solidão que se sente quando se anda num caminho de peregrinação no sentido contrário também não deve ser tão má. Todos os que conhecemos no caminho ou nos albergues desaparecem, o mais tardar, no dia seguinte, e desta vez não é exceção. Despedimo-nos e eles pedem-nos que levemos cumprimentos à Monika, em cujo albergue tinham passado a noite anterior. Tínhamos-lhes dito para onde íamos e por isso prometo transmitir os cumprimentos. Na localidade seguinte, Oberuhna, fazemos uma pausa numa paragem de autocarro (– não, ainda não está a chover!) e ficamos a ver o rebuliço numa antiga quinta de três alas, cujo portão está escancarado.

O caminho depois de Oberuhna
Pouco depois de Oberuhna saímos da estrada para a esquerda, por um caminho de terra, um atalho, como se veio a ver. Às vezes também se encurta caminho num caminho de peregrinação, portanto. A nossa experiência até agora, no entanto, diz outra coisa. Porque, na maior parte das vezes, aceitam-se desvios em favor de um traçado bem longe do tráfego furioso, ou junto a natureza bonita, ou a passar por locais de devoção ou igrejas. Um desses locais de devoção já o vemos ao longe: o Monumento do Milénio. Cito aqui o site viaregia-sachsen.de:

O Monumento do Milénio
«O monumento simboliza a difusão da mensagem cristã. Estão representados Cirilo e Metódio, que entre 863 e 885 evangelizaram no Grande Império Morávio. Como sinal do seu alegre anúncio e da difusão da fé na Lusácia, “brotam” da terra cruzes por todo o recinto. O conjunto convida a uma pausa e foi criado para momentos de oração, festas e celebrações religiosas.»
Ao aproximarmo-nos, vemos um carro parado junto ao monumento e, num banco, está sentado um homem um pouco anafado, de roupa de trabalho, que obviamente está a fazer uma pausa. Ao princípio penso que é alguém encarregado da manutenção do monumento. Mas, como se percebe na conversa, é um apanhador de cogumelos que montou aqui a sua «central» para passar os cestos cheios para baldes que tem prontos na carrinha. Mas a colheita de hoje ainda não é assim tão grande.

Bela alameda
Porque, à minha pergunta curiosa sobre o resultado, mostra-me apenas alguns míscaros-vermelhos e um boleto. Mas também não parece levar aquilo muito a peito – um apanhador por prazer, por assim dizer. A conversa do costume segue o seu curso: de onde, para onde e de onde originalmente – ou seja, onde vivemos. Quando dizemos Delitzsch, o homem levanta-se de repente, aperta-me a mão e diz: bem-vindo, conterrâneo. Passou a infância em Delitzsch, na Karl-Liebknecht-Straße (hoje outra vez Bismarckstraße). E assim, de repente, temos muito para conversar. Porque ele vai confrontando connosco o que sabe sobre tudo o que mudou em Delitzsch ao longo do tempo. Muita coisa ele já sabe, o que me mostra que continua com grande interesse pela sua antiga cidade natal.

Marco indicador na Via Regia
Entretanto, tiro ainda algumas fotografias ao monumento. Nas placas ali colocadas fico também a saber porque é que foi construído um conjunto tão grande precisamente aqui, longe de grandes povoações e longe das grandes estradas. Foi a Via Regia, enquanto rota comercial que unia os povos, que fez este lugar parecer adequado para erguer aqui mesmo este monumento, no ano 2000. Há séculos que este caminho representa o comércio pacífico. E hoje são peregrinos e caminhantes que levam a sua fé e a sua história ao mundo e que por aqui passam para se deterem em oração ou apenas para descansar. Um antiquíssimo marco indicador restaurado é testemunho da longa história deste caminho.

Salgueiros-chorões em Dreikretscham
Despedimo-nos do apanhador de cogumelos de Delitzsch e continuamos por uma bela alameda em direção a Dreikretscham. Aqui chama-me a atenção uma longa e imponente fila de salgueiros-chorões, plantada ao longo do Hoyerswerdaer Schwarzwasser. Uma coisa destas vê-se mesmo raramente. O que infelizmente também é raro aqui são tascas abertas. A de Dreikretscham parece muito convidativa, mas também muito fechada. Bem, quando o número de peregrinos na Via Regia atingir valores que compensem não abrir só à noite, isso certamente mudará. Assim, temos de continuar a viver das nossas reservas de emergência, ou seja, da mochila. Mas, por enquanto, ela fica fechada, porque primeiro seguimos até Storcha.

Na igreja paroquial de Storcha
Em Storcha fica a igreja paroquial neogótica do Sagrado Coração de Jesus, visível de muito longe. A igreja foi construída em 1870 por iniciativa da Associação Cirilo e Metódio, sorábia e católica. Cirilo e Metódio já os tínhamos conhecido no Monumento do Milénio, imortalizados em estátuas. A igreja paroquial está aberta e assim entramos no silêncio deste templo, muito grande para uma localidade tão pequena. Para nós continua a ser como entrar noutro mundo. Ficamos muito calados e muito pequenos, de repente movemo-nos mais devagar e só falamos em sussurros.

Igreja paroquial de Storcha
Seja reverência pelo propósito da casa ou respeito pelos fiéis que aqui procuram a proximidade de Deus e certamente a encontram, ambos ficamos diferentes neste ambiente. Mesmo sem acesso espiritual à fé, um edifício sagrado produz, portanto, também em nós o seu efeito – e um efeito muito bonito e bom, acho eu. Mas hoje só fizemos 12 quilómetros e queremos aproveitar o tempo excecionalmente bom para continuar a desfrutar do caminho. É meio-dia e, quando saímos da localidade, os sinos da igreja paroquial tocam como que em despedida e para nos dar ânimo. Mas hoje já não falta muito, por isso damo-nos ao luxo de fazer outra pausa num abrigo de paragem de autocarro pouco antes de Prautitz. À saída de Prautitz já vemos a torre da igreja paroquial de S. Simão e S. Judas, em Crostwitz. Conheço Crostwitz do tempo em que passei dois anos no lar de aprendizes da vizinha Panschwitz-Kuckau. Crostwitz tinha então uma piscina ao ar livre (hoje infelizmente já não) e, no verão, fazíamos de bom grado a caminhada de 3 quilómetros para lá chegar. Sobretudo os fins de semana em que não íamos a casa tornavam-se assim um pouco mais suportáveis.

Placa indicadora para o oásis de peregrinos em Crostwitz
Pouco antes da localidade, o caminho sai da estrada para a esquerda, o que para mim é um pouco incompreensível, porque assim não se passa diretamente pelo centro nem pela igreja. Por um caminho de terra passa-se a sul de Crostwitz, o que na verdade é uma grande pena. Porque não se perde só a localidade, muito bonita, e a imponente igreja paroquial, mas também o oásis de peregrinos da Monika Gerdes. Felizmente há uma pequena placa de madeira que atrai o peregrino para fora do caminho. Nela lê-se «Café, chá, bolo, bolachas, fruta». Se não fosse já o nosso destino, teríamos virado ali de qualquer maneira. Porque uma placa assim desperta curiosidade, sobretudo pelas pessoas que aqui cuidam tão comoventemente dos peregrinos e organizam algo que, na verdade, foge à norma. Atravessamos um pasto em direção à localidade.

A Andrea no oásis de peregrinos da Monika
Passando pela igreja e pelo salão paroquial, e guiados por placas do albergue, encontramos muito depressa a casa que procurávamos. O portão do jardim está escancarado, com a placa onde se lê «Pilgeroase». Debaixo de um telheiro de madeira há bancos e uma mesa com dois termos, caixas de lata, chávenas, pratos e uma campânula de bolo. É mesmo – um oásis. Da autora da iniciativa, nem sinal. Em compensação, há um aviso pendurado na porta do terraço a dizer que se pode empurrá-la à vontade para encher as garrafas de água, abastecer-se de bebidas ou usar a casa de banho. Infelizmente, os rapazes com quem nos tínhamos cruzado, ao contrário das instruções da Monika, tinham trancado a porta por dentro antes de saírem do albergue, de modo que temos de esperar pela Monika. Pomo-nos à vontade, aproveitamos o café e o bolo, lemos o diário dos peregrinos e eu dou umas voltas à casa.

Albergue em Crostwitz
É então que vejo um papel grande na entrada da frente. Ali está escrita uma lista inteira de contactos «para o caso improvável» de o albergue estar alguma vez fechado. Mesmo em frente é um relojoeiro, que sai à porta com os seus óculos de lupa depois de eu lhe tocar à campainha. «Em casa da Monika está fechado e na placa…», digo eu. O relojoeiro espreita por cima dos óculos, observa-me de alto a baixo e diz: «Mas tu não tens ar de peregrino.» Não sei se se refere à minha corpulência ou ao facto de eu estar à frente dele de sandálias de praia. «Já troquei de calçado», digo eu, julgando que ele se refere à segunda. De boa vontade entrega-me a chave, com a instrução de amanhã, antes de partirmos, a deitarmos na caixa do correio dele. «Claro», digo eu, e volto a pé para o albergue para abrir a porta do terraço por dentro. A Andrea sobe, enquanto eu tiro uma cerveja da grade que ali está à disposição para, de pernas para o ar, gozar o «fim do expediente».

A partir de hoje a nossa simpática companhia (não o gato, mas a Betina!)
De repente, está à minha frente uma mulher alta e esguia, de casaco vermelho e uma grande mochila azul. O seu rosto aberto e simpático literalmente irradia. «Finalmente um peregrino!», exclama. «Eu não ia aguentar muito mais tempo assim sozinha», diz ela. A Betina (sim, com um t), dos arredores de Darmstadt, não apareceu assim tão de surpresa. A Monika já me tinha falado dela ao telefone quando fiz a reserva. E disse que a peregrina que já estava inscrita ia certamente ficar contente por deixar de estar sozinha. «Até somos dois», disse eu, e depressa se desenrolou uma conversa agradável. Acho que simpatizámos uns com os outros desde o primeiro momento.

No albergue de Crostwitz
A Andrea desce com o comentário: «Acho que acabei de usar a cozinha e a casa de banho da dona da casa.» Mas ali diz claramente «atrás da porta de vidro». Lá em cima só há uma porta de vidro. Temos um apartamento inteiro à nossa disposição – incrível! Tanta confiança, tanta prestabilidade, tanto amor – estamos esmagados e muito curiosos por conhecer esta mulher. Entretanto, entretém-nos um gatinho que se instalou na mochila da Betina e agora não a quer largar por nada deste mundo. A Betina também quer ficar aqui hoje. Outra coisa ter-me-ia surpreendido, tendo em conta o quanto ela ficou contente com a nossa companhia. Desaparece com a Andrea para arrumar as suas coisas no albergue. Para celebrar o dia, bebo mais uma cerveja. Mais tarde, a Andrea e eu ainda damos uma volta pela localidade.

Na igreja paroquial de Crostwitz
Visitamos a igreja paroquial e tentamos abastecer-nos de mantimentos para o dia seguinte no pequeno supermercado. Porque é que escrevo «tentamos»? Logo quando tiro da fila o carrinho de compras minúsculo, sinto-me transportado para tempos há muito passados. O sortido e a forma como está exposto lembram-me muito um supermercado dos tempos da RDA. Cinco pacotes de açúcar lado a lado, ao lado frascos de mostarda também alinhados, atrás o vazio na prateleira. E assim continua em cada fila de prateleiras. O importante é haver alguma coisa em todo o lado. Mais tarde é a Betina, que também acha a loja digna de uma fotografia, o que deixa o dono muito admirado.

Supermercado nostálgico – infelizmente vai fechar em breve
A explicação vem logo a seguir: o dono quer desistir por causa da idade e não quer andar a acumular mercadoria de que depois não se consegue desfazer. Não há ninguém que queira ficar com o supermercado. Não admira: as pessoas que trabalham fora fazem as compras pelo caminho, de carro, e os poucos velhos que dependem do comércio local não dão volume de negócios suficiente para cobrir os custos. Nem compras de solidariedade ajudam, como nos conta mais tarde a Monika, visivelmente surpreendida com esta informação, nova para ela. Levamos ainda uma garrafa de vinho tinto para a noite e voltamos para o albergue. Depois chega a Monika e, quando ela comenta que já nos tinha visto hoje, lembro-me logo da condutora que nos acenou simpaticamente pouco depois de Bautzen. A Monika cativa-nos de imediato. Como um furacão, chama a si toda a atenção, de forma muito simpática, e, por assim dizer, põe-nos a trabalhar na sua organização. Seguimo-la de muito boa vontade até à cozinha. Convida-nos para jantar, com a condição de a ajudarmos a prepará-lo. O que ainda não sabemos: não estamos a preparar a nossa refeição, mas sim a dos próximos peregrinos. Porque para amanhã anunciaram-se 11 peregrinos, pessoas com deficiência e os seus acompanhantes. E isso exige não só alguns preparativos por causa da comida, mas também algumas mudanças logísticas na casa. Normalmente há muito espaço no rés-do-chão. Mas este ficou muito danificado no ano passado por uma cheia, de modo que o albergue teve de se recolher para o andar de cima.

Deixamos o nosso registo no livro dos peregrinos
Onde é que esta mulher vai buscar tanta energia? Tem uma profissão muito exigente como redatora no estúdio de rádio da MDR em Bautzen. Lá é responsável pela programação em sorábio. Quando está no turno da manhã, a noite dela muitas vezes acaba antes das quatro. Pelo meio desaparece um instante para o computador, para avaliar e aprovar uma reportagem. De alguma forma consegue, aparentemente sem esforço, conciliar tudo isto e, mesmo assim, dá-me a impressão de ser uma pessoa muito calma e arrumada. Estamos sentados na cozinha a picar legumes para a sopa. «Isto não é para vocês, é para amanhã. Para vocês fazemos batatas com requeijão», diz ela, e eu quase tenho pena. Também a Betina não consegue conter um «Ohhh, que pena». Não que eu tenha alguma coisa contra batatas com requeijão, mas a sopa a apurar espalha pela cozinha um aroma que me faz crescer água na boca. Entretanto há muito tempo para conversar, enquanto o meu canivete corta cenouras e couve-rábano. Os temas são variados, desde o caminho de peregrinação à história da casa, passando por experiências e convicções pessoais. Tudo lhe interessa. Antes de irmos para a mesa na cozinha da Monika, porém, ainda é preciso carregar colchões e mesas, ou melhor, cadeiras. De alguma maneira temos de chegar a 11 camas. Para isso é preciso levar colchões do rés-do-chão para cima e pôr na cozinha uma segunda mesa e mais cadeiras. Muitas mãos fazem o trabalho leve. E assim, pouco depois, estamos sentados à mesa a comer o nosso jantar.
Entre conversas agradáveis, deixamos o dia, cheio de acontecimentos, chegar ao fim. E agora também se explica o título deste texto: o dia dos encontros. Hoje encontrámos algumas pessoas que nos deixaram uma impressão duradoura. São encontros destes que podem dar origem a amizades. Tal como já vivemos em todos os nossos caminhos de peregrinação.
O dia da chuva: Crostwitz – Kamenz
O título já diz tudo. A melhoria do tempo de ontem, infelizmente, dura pouco. O primeiro olhar depois de nos levantarmos ainda nos dá uma falsa sensação de segurança. Mas mal pomos o primeiro pé na rua, começa a chover. E não para o dia inteiro.

Pequeno-almoço em casa da Monika
Combinámos com a Monika o pequeno-almoço para as sete. Ela tem de ir trabalhar e nós, claro, não queremos perturbar demasiado a sua rotina. Quando descemos, ela já está a pôr a mesa e também a preparar tudo para o oásis de peregrinos, enchendo os termos com café e chá. Também já voltou a carregar alguns colchões. Numa sala vazia do rés-do-chão há agora mais colchões no chão. «E se chegarem peregrinos e, com as 11 pessoas que já se anunciaram, eu já estiver cheia? Não os posso deixar à porta…» Acho que isto diz tudo sobre a atitude e a dedicação da Monika. Agora estamos sentados à mesa do pequeno-almoço, farta, e tentamos expressar à Monika a nossa gratidão, o que certamente só conseguimos em parte. No rádio estão a dar as notícias e a seguir há música. Que as notícias fossem transmitidas em sorábio, isso eu já sabia. Mas que também existe música pop moderna produzida em sorábio, isso é novidade para mim. Aos nossos ouvidos soa um pouco estranho. A melodia da língua tem algo de muito próprio e, embora sejam todas línguas eslavas, não soa nem a polaco nem a checo. Em jovem, no lar de aprendizes, tivemos uma vez de ensaiar uma canção sorábia numa espécie de coro. Para nós era um trava-línguas e de certeza que soava esquisito. É também a única coisa de que ainda me lembro. A letra há muito que se foi. Mesmo assim, quem vive aqui tanto tempo acaba inevitavelmente por entrar em contacto com a cultura sorábia. A Monika garante, no seu local de trabalho, que a língua e a cultura não sejam esmagadas pela alemã. Seria realmente uma grande pena. E também em tudo o resto se faz o possível por manter viva a cultura dos sorábios. Há escolas sorábias em que o sorábio é a língua de ensino. Há escolas alemãs em que o sorábio é ensinado como língua estrangeira. As tradições são mantidas por associações e comunidades das aldeias. Esta experiência já eu a tinha feito há muitos anos, quando ainda éramos cidadãos da RDA. É apenas um dos temas de que falamos à mesa do pequeno-almoço.

Saída de Crostwitz
Ainda haveria muito para contar e muito para saber. Mas a certa altura chega a hora de a Monika ir para o trabalho e, para nós, de pegar na mochila e dar lugar aos próximos peregrinos em Crostwitz. A Monika fica muito solene e ainda nos dá a bênção do peregrino, antes de nos despedirmos cheios de gratidão. Na verdade, pensávamos que a Betina se ia juntar a nós. Mas ela anda a demorar-se e tudo indica que hoje prefere ir sozinha. Mais tarde fiquei com a impressão de que ela tinha receio de nos incomodar. Quando, no dia seguinte, perguntava vezes sem conta se podia mesmo ir connosco, eu disse: «Se perguntares mais uma vez, deixamos-te mesmo sozinha, por isso acabou. Nós avisamos quando começares a ser chata», disse eu a sorrir. Hoje, porém, saímos de casa bastante antes dela. A Betina ainda quer visitar pelo caminho uma filial da empresa dela e conhecer as pessoas que normalmente só conhece do telefone. Bem, eles vão ficar de boca aberta. Por precaução, trocámos números de telefone e moradas. Levo então a nossa chave de volta ao relojoeiro e lá vamos nós outra vez a caminho. E… está a chover. Do caminho de terra entre Crostwitz e Panschwitz-Kuckau ainda me lembro muito vagamente. Chama-se Trebenja e, em muitos troços, é parecido com os caminhos encaixados da Galiza. Pouco antes de Panschwitz, o caminho de peregrinação vira à esquerda. É um desvio, mas passa por um troço da Via Regia original até ao parque do mosteiro de St. Marienstern. Como sei disso e, com este tempo, não me apetece nada fazer desvios, seguimos em frente e poupamos quase um quilómetro. À entrada da localidade, porém, tenho de arranjar tempo para uma fotografia. A Andrea fotografa-me tal como eu, já em 1976, me tinha encostado a esta placa de entrada da localidade. Esta foto há de estar algures…? Ahh, aqui está ela:
Entrada de Panschwitz-Kuckau ontem

E hoje
Descemos agora ao longo dos altos muros do mosteiro até ao portal de entrada do pátio. Já nessa altura funcionava aqui a quinta do mosteiro e, tal como noutras aldeias os agricultores trabalhavam na cooperativa agrícola (LPG), aqui os trabalhadores rurais iam para a quinta do mosteiro. Desde então o conjunto monástico ganhou muita cor e, ao contrário de antigamente, tem um ar muito convidativo, com as suas fachadas claras realçadas a vermelho.

Mosteiro de St. Marienstern
Seguimos o caminho até à igreja do mosteiro e entramos no grande espaço da igreja, que já está meio cheio. O mosteiro cisterciense de St. Marienstern mantém há décadas um lar para pessoas com deficiência intelectual. Lembro-me muito bem das irmãs que davam passeios pela aldeia ou pelo parque do mosteiro com os casos menos graves. De resto, quase não se viam as cistercienses. Para nós, jovens, os muros do mosteiro eram algo de muito misterioso e estranho. E estávamos bastante curiosos por saber o que havia do outro lado. Mas pouco se via da vida desta ordem rigorosa. Só às vezes víamos a madre superiora ir a Kamenz no seu Wartburg Tourist, para buscar à estação uma rapariga nova, provavelmente uma noviça. Estamos agora sentados lá muito atrás na igreja e ouvimos as palavras do padre, que celebra uma missa para os residentes do lar. Naquela altura, há 36 anos, nunca me teria passado pela cabeça ir a uma missa, embora ali se celebrassem regularmente. A Saxónia é, na verdade, protestante, mas os sorábios da Alta Lusácia são católicos. Na altura, aquilo pouco me dizia, e a igreja e a fé, fosse qual fosse a religião ou corrente, eram-me estranhas e um pouco inquietantes. A minha educação, como a de muitos alemães de Leste, é de cunho ateu. Mas consegui conservar a minha curiosidade. E, embora continue a não ter grande coisa a ver com a Igreja enquanto instituição, o cristianismo interessa-me pela sua atitude humanista de fundo, que defende depois de ter superado as confusões e os erros da Idade Média (refiro-me à Inquisição ou às Cruzadas). Com muitas coisas, porém, não me consigo identificar, o que tem a ver com a minha educação e com a minha visão do mundo, científica e muito secular.

Antes da missa
Isso, no entanto, não me impede de espreitar por cima da cerca do vizinho (ou, aqui, por cima do muro do mosteiro) para desfazer preconceitos e incompreensões acumulados. Assim, estou aqui sentado num lugar onde, há muitos anos, nunca me teria imaginado no futuro, a ouvir um padre católico. E o que ele diz, di-lo de forma a que os residentes do lar o entendam. Vê-se nos rostos quanta alegria há na sala. E assistimos a um pequeno coro de jovens com deficiência intelectual a entoar algumas canções, cheios de alegria e fervor. E meia igreja canta com eles. Depois o padre começa a homilia. Pensamos que ouvimos mal e olhamos um para o outro, um pouco espantados. Porque ele fala sobre o tema «O caminho é a meta». Tomamos cada palavra como dirigida a nós. Mas temos a certeza de que ele não nos podia ter visto, lá longe, nas últimas filas. Não é a primeira vez que nos acontece algo assim, difícil de explicar, num caminho de peregrinação, e é uma daquelas coisas que o meu cérebro, muito racional, não consegue explicar. Por isso deixo acontecer e fico contente. Menos contentes ficamos quando voltamos a sair da igreja. Debaixo do arco do pátio do mosteiro voltamos a pousar as mochilas para lhes pôr as capas de chuva, de que nos tínhamos esquecido de manhã. Felizmente, as mochilas são bastante impermeáveis mesmo sem proteção, de modo que o conteúdo ainda não sofreu danos. Pena que, com este tempo, já não me apetecesse fazer uma volta maior por esta terra que conheço tão bem. Mas umas fotografias em frente ao antigo restaurante da Konsum, que agora se chama «Karstens Bierstube» e «Restaurant», e onde passámos tantas noites em toalhas manchadas, com Klosterbräu ou cerveja de Bautzen e salsichas de Kamenz com mostarda de Bautzen, têm mesmo de ser.
o restaurante da Konsum ontem

Hoje a Karstens Bierstube
E também do Klosterwasser, um riacho que separa os bairros de Panschwitz e Kuckau, e da estrada que subimos e descemos tantas vezes para ir à tasca. Agora parece que eu era um bêbedo naquela altura. Nos tempos da RDA, a cerveja era mesmo barata, e nas tascas até mais barata do que na loja. Mas o magro salário de aprendiz (64 marcos da RDA!) não dava de todo para nos embebedarmos regularmente. Desse dinheiro ainda eram descontados 32 marcos para o lar e a comida. Uma viagem de comboio a casa, ida e volta, custava 16,10 marcos, e o autocarro para Kamenz, para a escola profissional, 3,60 marcos por semana. Não sobrava muito, se os pais não ajudassem com alguma coisa. – Meu Deus, as coisas de que uma pessoa se lembra quando se põe a escrever.

O Klosterwasser e a tasca do Bloch, entretanto fechada
E também nos vêm à memória todas as malandrices. Como esta (mas não contem a ninguém!!): era o primeiro domingo do Advento e estávamos sozinhos no lar. E no Advento tem de haver uma árvore de Natal no quarto. Mas de onde? E, sobretudo, comprá-la simplesmente teria sido aborrecido. Por isso inventou-se uma aposta. Fez-se uma coleta no lar e juntaram-se quase 20 marcos. E depressa se encontrou também uma vítima voluntária, suficientemente maluca para alinhar no disparate. Quem conseguisse correr nu em pelo (estavam -7 graus!!) pela aldeia até ao Juri (que é a tal tasca) e roubar uma pequena árvore de Natal em frente à tasca dele, ganhava os 20 marcos. Não se vai acreditar, mas resultou mesmo.

A rua principal de Panschwitz
Imagino que uma velhinha envolta no seu traje sorábio, como as víamos muitas vezes a ir ou a vir da igreja, teria desmaiado ali mesmo, de pé, se tivesse visto o jovem nu, vestido apenas com uma árvore de Natal, a correr pela aldeia invernosa. E, no fundo, até o desejámos um bocadinho. Mas, naquele tempo, em Panschwitz recolhiam-se os passeios depois das 19 horas, e hoje a aldeia dá-me a impressão de que ainda é assim. Portanto: a aposta foi ganha, ficámos sem o dinheiro, mas tínhamos a nossa árvore de Natal, e acho que o pequeno furto já prescreveu. Uma árvore pequena daquelas custava então uns 3 marcos. Quando muito, podiam ter-nos apanhado por atentado ao pudor ou por desacatos. O ABV (o polícia de bairro) era, de qualquer maneira, visita permanente do lar. Quando acontecia algum disparate na aldeia, a investigação começava sempre pelos aprendizes. Mas muitas vezes nem éramos nós, como quando, por exemplo, todo o vasilhame da tasca apareceu no Klosterwasser. Isso, claro, gerava tensões entre a juventude da aldeia e nós, os aprendizes, que se resolviam em mais de uma rixa. Não tenho a certeza, mas existe a possibilidade de o nosso atual ministro-presidente também ter andado por lá. Tem a minha idade e ainda hoje vive em Panschwitz. Estou aqui a escrever-me até me enterrar, reparo. E ainda se poderiam encher páginas com estas peripécias. Mas o assunto é a peregrinação, e por isso saímos, passando pelo campo de futebol (onde marquei muitos golos), da «sepultura da minha juventude», como lhe chamávamos na altura. Com os anos, muita coisa se idealiza e, felizmente, só o que é positivo fica nos pensamentos.

Abrigo: paragem de autocarro
Os caminhos estão cada vez mais lamacentos e cada vez mais vezes temos de nos desviar das grandes poças. A isto junta-se um vento cortante e muito frio. Em Nebelschütz sentamo-nos durante algum tempo na paragem de autocarro, até onde, no sentido literal da palavra, tivemos de abrir caminho à força. No asfalto, entretanto, formam-se bolhas com as grossas gotas que nos caem em cima. Ao segundo pequeno-almoço tomamos uma decisão. Estamos encharcados, estamos com frio e de maneira nenhuma vamos ainda hoje até Reichenau, o nosso destino previsto para hoje. Vamos procurar um albergue ou uma pensão em Kamenz e ficamos por aqui. E assim, que se lixe a chuva: baixamos a cabeça e seguimos caminho.

Chegámos a Kamenz
Só à entrada de Kamenz voltamos a levantá-la, para ligar à Betina e lhe comunicar a nossa decisão. Ela concorda logo e prometemos voltar a dar notícias quando tivermos encontrado alguma coisa. As escadas íngremes até à cidade velha dão cabo de nós. Logo perto da Marienkirche encontramos a casa paroquial da cidade, convencidos de que ali nos dariam alojamento. Mas enganámo-nos redondamente, porque ali apenas nos encaminham para o posto de turismo. Quando ainda me lamento um bocado por causa do tempo, ficamos a saber que o único albergue é no Hutberg. Deveríamos ficar sem falta com o quarto dos fundos. Porque ali há um problema com a tiragem da lareira. E também é um pouco húmido. Chega. Era mesmo só o que nos faltava hoje: um albergue húmido e bafiento e, ainda por cima, a subida ao Hutberg. Na minha tabela encontro ainda a Pension Wendländer. Fica mesmo ao virar da esquina.

Na Pension Wendländer
Agradecemos, recebemos o nosso carimbo e tentamos a pensão na Pulsnitzer Straße. Temos sorte e a senhora Wendländer abre-nos a porta. Avisa-nos logo de que tudo ficou mais caro e que não conseguiu manter os 18,50 € publicados, tendo subido o preço para 20 €. Ficamos com um quarto duplo simpático e achamos o preço perfeitamente adequado e muito amigo dos peregrinos, ainda para mais com pequeno-almoço incluído. Muito importante hoje é o aquecimento, para secar a roupa, e um duche quente. Ligamos logo à Betina, depois de nos certificarmos de que também ainda há uma cama para ela. Pouco depois, também ela está à porta. Só à noite a chuva abranda e voltamos a atrever-nos a sair.

A praça do mercado de Kamenz
Kamenz não é muito grande e, além da igreja de St. Marien, da praça do mercado com a sua elegante câmara municipal, do Museu Lessing e da igreja de St. Annen, onde também há um museu, não tem tanto para oferecer como, por exemplo, Bautzen ou Görlitz. Não nos apetece muito ir a museus e por isso despachamos depressa a volta pela cidade. Além disso, a Marienkirche infelizmente está fechada. «Vocês têm fome?», pergunto, na esperança de ouvir pelo menos um sim. É que eu tenho, e sobretudo apetece-me uma verdadeira salsicha de Kamenz. Durante o meu tempo de aprendiz era um dos nossos alimentos básicos. Era rápido, era barato e era mesmo bom, diferente da habitual Bockwurst. Havia então junto ao mercado uma espécie de snack-bar onde primeiro se pedia, se recebia um número e depois uma cara grossa e muito vermelha espreitava por um postigo e berrava o número para a sala. Se a pessoa fosse rápida e não lhe roubassem a salsicha debaixo do nariz, pouco depois estava outra vez fora daquela sala cheia de fumo. Proibição de fumar em restaurantes era coisa de que ainda não se falava. Esta salsicha só existe nos arredores de Kamenz, e as cópias que às vezes se encontram nos grandes discounts não têm nada a ver com o original.

Simpática empregada na Klosterstraße
Falta pouco para a hora de fecho. Não nos apetece uma grande refeição num restaurante. E assim, sem pensar duas vezes, entramos no talho da Klosterstraße 5. Com cautela, sabendo bem a hora que é, pergunto se ainda nos podiam arranjar três salsichas de Kamenz quentes. «Bem, então tenho de aquecer umas. Sentem-se ali um bocadinho entretanto. Eu depois levo-as aí», diz ela, no mais genuíno saxão. A Betina farta-se de rir com o nosso dialeto e tenta imitá-lo. Mas deve ser um dialeto muito difícil, porque ela tem grande dificuldade em falar à saxónica. Nós bebemo-lo com o leite materno e custa-nos reprimi-lo – e para quê? Depois as salsichas ficam prontas. Peço ainda cerveja para acompanhar e logo é quase como antigamente. A empregada não tem pressa de ir para casa e ficamos ainda um bocado sentados à conversa. Acaba por ser uma noite divertida. Depois temos compaixão da simpática empregada e despedimo-nos para a cidade, já mergulhada no crepúsculo – sem chuva a cair do céu.
O dia dos cogumelos: Kamenz – Königsbrück – Stenz
Sem ter visto a previsão do tempo, noto esta manhã que alguma coisa está diferente. Não é só estar seco lá fora: o vento mudou de direção. E isso é um sinal francamente bom.

Pequeno-almoço em Kamenz
Mas antes de nos pormos a caminho, sentamo-nos primeiro à mesa do pequeno-almoço, farta e bem posta. A senhora Wendländer esmerou-se a sério e nós não temos grande pressa em partir. Hoje caminhamos juntos e a Betina já não se atreve a perguntar outra vez se se pode juntar a nós. Despedimo-nos então da senhora Wendländer e atravessamos Kamenz, inundada pelo sol da manhã. Ainda espreitamos o talho e encontramos a simpática empregada, que já está outra vez ao balcão. O caminho está bem sinalizado em Kamenz e decidimos não subir o Hutberg, mas contorná-lo pela direita, o que não implica desvio nenhum e nos poupa a pôr a forma física à prova logo de manhã.

A névoa sobe da floresta
Da floresta, em contraluz, sobe a humidade dos últimos dias, deixando um curioso jogo de sombras. Algumas árvores de folha caduca começam já a ganhar cor, o que ao sol fica, claro, muito mais bonito do que à chuva. Durante algum tempo seguimos ainda por uma estrada secundária asfaltada, antes de mergulharmos na floresta por um caminho de gravilha. É uma coisa completamente diferente quando não temos de nos preocupar em saber se vamos conseguir secar a roupa. E, claro, é muito mais divertido entrar no dia de espírito leve.

Panorâmica depois de Kamenz

Na floresta antes de Schwosdorf
E assim seguimos, ora embrenhados na conversa, ora em silêncio, mas sempre bem-dispostos e descontraídos, pela floresta verde e exuberante em direção a Schwosdorf. Schwosdorf apresenta-se primeiro como uma aldeia bastante espalhada, com as quintas muito afastadas umas das outras. Segundo o guia do peregrino, há aqui um albergue de peregrinos. É a associação PRO Wal- und Wüsteberg e.V. que mantém este albergue, diante do qual estamos agora e em cujo jardim observamos um homem a trabalhar num muro de pedra seca, orientado pelas instruções de uma mulher jovem que está à frente dele. Ele não diz muito, ou melhor, não diz nada. Ela, em compensação, diz por dois.

Albergue de Schwosdorf
Não lhe conseguimos escapar. Num instante convida-nos a entrar e eu ainda consigo dizer que não vamos pernoitar ali. Mas a isso ela certamente teria chegado sozinha, tão cedo no dia. Um café não seria nada mau, diz a Betina. E já estamos no escritório do albergue a ver a dona da casa pôr a máquina de café a funcionar. No pequeno escritório, onde também se podem comprar algumas coisas, só nos resta olhar. Porque, de qualquer forma, não conseguimos meter uma palavra. Com grande abundância de palavras, recebemos todas as informações sobre a casa e sobre as circunstâncias que a tornaram no que é.

Convite para um café
A associação foi fundada em tempos porque um suposto investidor queria abrir uma pedreira ali perto, no Walberg e no Wüsteberg. Os habitantes uniram-se no protesto e tiveram êxito. Os montes continuam lá, mas a associação tinha perdido a sua razão de ser e o seu objetivo. Decidiu-se então transformar a casa em albergue de peregrinos. E desde então que aqui se constrói. Se algum dia vai ficar pronto, tenho as minhas dúvidas. Mas o empenho mantém-se intacto e existe em grande quantidade. O café está quase pronto e também já há um pouco de bolo na mesa. O monólogo, esse, ainda não terminou. O construtor do muro de pedra seca até agora não disse nada – nem podia. Os ouvidos já me zumbem e procuro uma maneira de me despedir com educação e fugir. Os meus pensamentos andam à volta do que seria se tivéssemos pernoitado aqui. Que não me interpretem mal: a mulher era de facto muito simpática e tem as melhores intenções, só que com palavras a mais. Também a Andrea me vai sorrindo de vez em quando. Provavelmente está a pensar o mesmo. A Betina, entretanto, «ocupa-se» do homem do muro, que voltou à sua obra. Mais tarde fico a saber o teor da conversa. Interpelado sobre o seu silêncio e perante o comentário da Betina de que ele tinha ali um bom apoio, respondeu apenas: «sim, mas ela só fala.» O bom do homem já se tinha conformado com o seu destino. Aliás, ao contrário do que eu julguei a princípio, não é o companheiro da mulher, mas uma espécie de funcionário da junta da aldeia.

A antiga estrada postal para Reichenau
Muito mais tarde lá ganhamos finalmente coragem para interromper a torrente de palavras e nos despedirmos, o que de início não impressionou grande coisa a nossa anfitriã. Só quando já temos a mochila às costas é que conseguimos dizer obrigado e pôr-nos a andar. «Pois, aquela não tinha falta de conversa», digo eu passados uns minutos. As minhas duas companheiras comentam com um sorriso, mas sem palavras. Certamente não querem aumentar ainda mais o meu zumbido nos ouvidos. Antes que eu passe aqui uma impressão errada: escrevo tudo isto com um sorriso nos lábios e a piscar o olho. Não quero mesmo assustar ninguém e esta descrição não tem nenhuma maldade. Foi simplesmente um encontro bastante divertido com uma mulher do caminho que não consegue conter o seu entusiasmo.

Finalmente em Reichenau
Seguimos agora de novo por um largo caminho de areia floresta adentro. É a antiga estrada postal e caminhamos sobre o traçado original da Via Regia. São vários quilómetros até Reichenau, durante os quais desfrutamos do sossego da floresta, interrompido apenas por uns quantos apanhadores de cogumelos. Logo do caminho se veem muitos cogumelos, alguns dos quais classifico como comestíveis. Mas hoje não temos uso para cogumelos. O nosso destino não é o indicado para isso. Porque queremos ir para a Armenhaus (a casa dos pobres) em Stenz, uma localidade que pertence a Königsbrück. Se lá vamos poder cozinhar os cogumelos, não sabemos. E por isso preferimos deixá-los na floresta.

Albergue de Reichenau
Muito antes de Reichenau sinto uma necessidade natural que não admite grandes adiamentos. Sabendo que existe um albergue em Reichenau, aperto então um pouco o traseiro e dou passos mais pequenos, na esperança de não ter de ir ao mato. Com gotas de suor na testa, consigo chegar a Reichenau. No albergue está afixado um papel com moradas e números de telefone e fico contente por uma das moradas ser mesmo do outro lado da rua e por alguém abrir a porta quando toco. «Não vamos pernoitar aqui. Mas seria possível usar a casa de banho do albergue?», pergunto, um pouco aflito. «Claro que sim», diz a mulher, e vem pôr-me na mão a chave do albergue. Homem, que alívio!

Em frente ao albergue de Reichenau
Mas tudo tem um sentido mais profundo, pode pensar-se, quando se fica a saber o que aconteceu a seguir. Só porque precisei de ir à casa de banho, não só pudemos visitar o albergue, que é muito bonito, como ainda nos indicaram outro caminho que, como se veio a revelar, seria um dos troços mais bonitos de toda a nossa viagem. «Se seguirem aqui pela esquerda e não continuarem pelas placas, ao fim de uns 600 metros chegam a uma placa de madeira que indica à direita o “Tiefetal”», disse-nos a simpática senhora. «O caminho vai mesmo ao longo do Pulsnitz, por um vale romântico.»

O Pulsnitz no Tiefetal
Ficamos a saber que primeiro se quis fazer passar o caminho de peregrinação pelo vale, mas que a autoridade de proteção da natureza o proibiu por causa dos danos que os peregrinos iriam previsivelmente causar. «Pois, vêm cá todos os dias 100 peregrinos que pisoteiam a paisagem, arrancam tudo e deixam o lixo para trás», digo eu com sarcasmo. As pessoas de Reichenau, no entanto, mandam pelo vale todos os peregrinos que veem. E que fazem muito bem, comprovamo-lo pouco depois, ao fim de 600 metros. Depois de uma pequena ponte sobre o rio Pulsnitz, mergulhamos numa floresta de conto de fadas. Como numa floresta virgem, aqui tudo cresce como quer, e também o que já não cresce e está caído no chão fica tal como está. Pelo meio corre, em curvas selvagens, muitas vezes represado por pedregulhos ou árvores tombadas, o Pulsnitz com a sua água límpida. Pois é, e porque chamo a este troço o «dia dos cogumelos», vê-se nas fotografias que se seguem.









Na verdade, eu queria que este caminho nunca acabasse. E caminhamos muito mais devagar do que é costume. Mas as primeiras casas de Königsbrück anunciam que chegámos ao destino de hoje.

Praça do mercado de Königsbrück
Afinal até ficamos contentes por ter chegado, porque começa a instalar-se uma sensação de vazio no estômago. E assim procuramos em vão, na praça do mercado de Königsbrück, um sítio onde comer. Mas também já não queremos andar muito tempo à procura. Decidimos então entrar na casa de kebabs, que a esta hora parece ser a única possibilidade de arranjar alguma coisa para comer por aqui. E é melhor do que receávamos. Até levamos uns pães de alho para a noite. A caminho de Stenz passamos pela Marienkirche e entramos.

Marienkirche de Königsbrück
Vêm ao nosso encontro sons de órgão e entramos em bicos de pés. Lá em cima, no coro alto, avistamos um rapaz a fazer uma sessão de treino ao órgão. De vez em quando mistura-se uma nota desafinada na sua execução. Só quando dá por nós começa uma peça nova, que depois toca do princípio ao fim sem um erro. Quando se entra num edifício sagrado como este, muda-se de comportamento de qualquer forma, como já escrevi. A impressão que causa um espaço assim, cheio de música de órgão até ao último recanto, é indescritível. Um arrepio sucede-se a outro. Impressionados, ouvimos a música, agradecemos ao organista quando termina e saímos da igreja. A curiosidade pela tão elogiada Armenhaus faz-me andar um pouco mais depressa. No guia do peregrino diz-se mais ou menos isto: quem está habituado a uma vida simples vai sentir-se bem aqui. Quem está habituado ao luxo vai descobrir aqui como é preciso tão pouco para se sentir bem. E estou curioso para ver esse pouco. Depois já a vejo: uma casinha minúscula de enxaimel, mesmo à beira da estrada. A porta está fechada com um cadeado antiquíssimo. Atrás de uma pequena janela de correr está o carimbo para os peregrinos de passagem, e na janela está afixado um papel com as moradas das pessoas de contacto. Ponho-me logo a caminho para encontrar a casa do Werner Lindner, enquanto a Andrea e a Betina se instalam confortavelmente ao sol no banco que está em frente à Armenhaus. Encontro-o depressa. Um homem de idade, em roupa de trabalho, vem ao meu encontro e dá-me as boas-vindas a Stenz com uma certa solenidade.

A Armenhaus em Stenz
Este ar solene mantém-no também quando estamos todos sentados dentro da casa, à mesa rústica, e nos explica a diferença entre os outros albergues do caminho e esta casa. «Nos outros albergues sois hóspedes. Esta aqui é, por hoje, a vossa casa.» A Betina volta sempre a tratá-lo por «o senhor», o que o Werner corrige com energia. Aqui há de facto muita coisa diferente. Não há eletricidade e, portanto, também não há luz elétrica. Não há água canalizada. Não há duche nem lavatório. Mas há uma latrina atrás da casa, um fogão de alvenaria com forno e camas forradas a palha no sótão.

As nossas camas no sótão
Seguimos o Werner até ao sótão e vemos uma cama-caixa e uma cama de casal, forradas de palha e cobertas com enormes edredões de penas. «Mudamos a roupa de cama de 14 em 14 dias. A quem não agradar, que use o saco-cama.» São regras claras e eu acho que não somos assim tão esquisitos. Debaixo de um banquinho está o «vaso da meia-noite» (o bacio). Não consigo evitar um sorriso ao vê-lo e estou curioso para ver como é que a alta Betina se vai enfiar esta noite na pequena cama-caixa. Para nós os dois está, claro, reservada a cama de casal. De volta à «sala de estar», lá em baixo, o Werner ainda nos acende o fogão e diz que provavelmente não será ele, mas o Sigmar, a vir trazer-nos a água.

O Werner acende o lume
A água vem numa grande bilha de leite e com ela tem de se fazer tudo: lavar a loiça, o café e a higiene da noite e da manhã. O Werner ainda nos explica como lidar com o fogão e com a chama aberta, o que não é de somenos em matéria de proteção contra incêndios. E logo nos deixa sozinhos. Mas ainda temos um pequeno problema. Para a noite precisamos de alguma coisa para beber e, para o dia seguinte, das nossas provisões para o caminho. As mulheres tornam então a casa acolhedora, enquanto eu volto ao centro de Königsbrück à procura de um supermercado. Que fica, claro, exatamente no outro extremo da localidade. E assim quase apanho uma cãibra no braço. Com medo de que as garrafas rompam o saco de plástico, entalo-o debaixo do braço. Também teria sido uma pena perder as garrafas de vinho tinto.

À noite na «sala de estar»
Quando volto, a Andrea e a Betina já estão outra vez sentadas ao sol. Além de não deixar o lume apagar-se e de aquecer água para o café, também não há muito que fazer. À noite chega então o Sigmar com a bilha da água e uma garrafa de vinho e conta-nos a apaixonante história da Armenhaus de Stenz. Os dois amigos, Werner e Sigmar, tiveram, julgo eu, um papel decisivo para que esta pequena joia fosse salva da demolição. Ficamos muito impressionados com a história e com o empenho destes dois homens. E teríamos ficado ainda muito tempo a ouvir o Sigmar. Mas ele despede-se pouco depois, avisando que volta amanhã de manhã para nos trazer o pequeno-almoço. Isso, claro, ouvimos com todo o gosto. Deseja-nos uma boa noite e nós ficamos agora curiosos para ver se vai ser mesmo boa.

Que mais é preciso?
Bebemos o resto do nosso vinho e o que o Sigmar trouxe, à luz das velas de cera acesas. O ambiente é bom e passamos uma noite aconchegante junto ao fogão a crepitar. Só a ida à latrina exige algum hábito. Conheço uma instalação destas de tempos já muito distantes. Os meus avós tinham uma retrete assim no quintal e também durante o serviço militar, no acampamento, tínhamos de usar uma latrina destas. Acho piada ao cestinho com papel de revistas rasgado em pedaços retangulares. É papel couché! Limpa muito, muito mal! A certa altura, não olhei para o relógio, chega a hora de subir. A Betina enfia-se debaixo do grosso edredão de penas na sua caixa e nós metemo-nos na nossa. A base de palha é agradavelmente dura e o grosso edredão de penas parece esmagar-nos. Mas fica-se bem quentinho, sem que se torne desagradável ou suado. Único problema: o meu lado inclina ligeiramente para o meio e eu rolo constantemente para onde a Andrea defende o seu lugar. Pois é, e agora desconfio porque é que não era só a falta de televisão que fazia com que antigamente as pessoas tivessem mais filhos….
O dia do frio: Stenz – Schönfeld
Acho que há muito tempo que não dormia tão bem como esta noite. É verdade que de vez em quando rolava para o lado da Andrea por causa da base um pouco inclinada, e também tive de ir ao «cantinho» durante a noite, o que no escuro não tem graça nenhuma, porque o vigamento aqui em cima é muito baixo e eu tinha deixado a lanterna lá em baixo na mochila. De resto, porém, foi uma noite muito agradável na Armenhaus.

O nosso «vaso da meia-noite»
Para uma ou duas noites é uma experiência refrescante, assim sem eletricidade, sem água canalizada e sem conforto. Mas viver sempre assim? Aí percebe-se o que os nossos antepassados tinham de aguentar. Mas eles também não conheciam outra coisa. A Andrea e a Betina também dormiram francamente bem, garantem elas. Do meu lado entrava às vezes uma corrente de ar. De manhã percebo porquê. Mesmo ao lado do meu traseiro entra uma luz clara por baixo do beiral. No revestimento do beiral abre-se um buraco redondo na madeira que, à noite, por causa da escuridão, eu não tinha visto. Para travar a corrente de ar, teria de ter posto um tijolo à frente do buraco. Mas como não o tinha visto, apanhei ar bem fresco. A mudança de tempo trouxe ar limpo e sol, mas também o frio da manhã. Custa um bocado lavarmo-nos quando não há água quente a correr da torneira. Para a higiene da manhã ainda há água suficiente e há duas grandes bacias de metal, uma para o corpo e outra para a loiça. Antigamente, segundo soubemos, a água vinha do poço da aldeia. Ontem veio do Sigmar, na bilha de leite.

O Sigmar traz-nos o pequeno-almoço
E às 7h30 lá está o Sigmar à porta, com dois grandes cestos onde vem o nosso pequeno-almoço. Além de pãezinhos frescos, traz ovos acabadinhos de pôr, enchidos, compota, manteiga e café em termos. Da horta dele há tomates e pepinos na mesa. E, para coroar tudo, ainda desembrulha três fatias de Dresdener Eierschecke. «Quem é que vai comer isto tudo?», pergunto, quando nos sentamos à mesa. «Façam qualquer coisa para o caminho, e o bolo também o podem levar», responde o Sigmar. Atacamos com vontade e ficamos sentados confortavelmente na sala de estar, que, graças ao calor que resta do velho fogão, ainda está a uma temperatura muito agradável. Pelo meio, o Sigmar conta-nos mais coisas sobre a casa e sobre a associação local de património que a mantém. Não são só peregrinos que aqui ficam. Também turmas de escola recebem aqui aulas vivas de história local. Associações usam a casa, e pessoas que foram postas fora de casa podem alugá-la temporariamente.

A Betina a lavar a loiça
Tal como na noite anterior, gostaríamos de o ouvir mais tempo. Mas tão depressa como o Sigmar apareceu, também desapareceu. Enfim, talvez já se tenham anunciado os próximos. O livro de peregrinos mostra, em todo o caso, que a casa é bem frequentada. Ainda arrumamos um pouco a casa, escrevemos umas palavras de agradecimento no livro de peregrinos e carimbamos a credencial com o carimbo para os donos da casa. O da janela é só para os peregrinos de passagem, disse-nos o Werner quando nos deixou entrar ontem. Depois pegamos nas nossas coisas e estamos mesmo a partir quando vejo, na estrada principal, um grupo maior de caminhantes. Como vão na mesma direção e estão equipados de forma parecida connosco, são logo classificados na categoria de peregrinos, o que se revela correto. Uma das diferenças em relação a nós, porém, é que não vão para albergues de peregrinos, preferindo pensões e hotéis reservados a partir de casa. Enquanto peregrino, acho isso, digamos, pouco ideal, ou melhor, acho que assim se fica de fora de uma parte de experiências, positivas e negativas, que para mim é indispensável.

A Andrea eterniza-nos no livro de peregrinos
Acabámos de passar uma noite que vai ficar para sempre na minha memória. Pensões e hotéis são anónimos, intermutáveis e não têm o encanto de um albergue de peregrinos. Como fiquei a saber numa conversa com um dos seis peregrinos, eles fazem o mesmo caminho que nós, mas ainda assim muitos mais quilómetros, porque as pensões reservadas ficam muitas vezes bem longe do caminho. Num dia juntam-se assim facilmente mais 10 quilómetros. Se isso é compensado pela maior comodidade e pelo conforto das pensões, permito-me duvidar. Uma senhora de 80 anos, que carrega corajosamente a mochila e a cujo ritmo todos se adaptam, chegou a dizer-nos mais tarde que teria preferido ir connosco para os albergues. Enfim, cada um tem as suas exigências em relação a um caminho de peregrinação, e assim também é preciso aceitar a decisão do grupo. Conversamos animadamente com os novos companheiros, mas percebemos que temos muito mais para contar. As pessoas ouvem-nos com interesse e fazem muitas perguntas. Depois param de repente, com o comentário de que aquele era um sítio muito adequado para uma oração da manhã. Homem, pensei eu, agora apanharam-me outra vez desprevenido. Nas conversas ainda não tínhamos chegado tão longe. É que sobre a minha motivação e a da Andrea para fazer este caminho ainda não nos tínhamos revelado. E simplesmente seguir em frente também teria parecido estúpido. Além disso, quero ter consideração pela Betina, que tem motivos claramente religiosos para fazer este caminho. E já alguém me põe um pequeno livro de cânticos à frente do nariz e eu dou com caras interrogativas, porque não trago nenhum. Nem podia, se nem sequer o conheço. Depois começam todos a cantar alto e com todo o fervor. Só dois ficam calados, a Andrea e eu, o que naquele momento me deixa muito embaraçado. Um pouco envergonhado, olho para o livrinho. Para cúmulo, a meio da cerimónia toca o telemóvel da Andrea: é a hospitaleira de Schönfeld a devolver a chamada. Quer dizer-nos que podemos ir, mas que temos de ter um pouco de paciência, porque à tarde ainda tem uma visita guiada ao castelo. Com uma certa inveja vejo como a Andrea consegue escapar à situação, afastando-se para telefonar. À frente do meu nariz continua a balançar o livro de cânticos, como se me intimasse: canta lá de uma vez! Tenham lá juízo e percebam, digo para mim, e só me apetece que a terra me engula. Porque é que o meu telemóvel não toca? Normalmente até toca nas ocasiões mais inoportunas.

O sol da manhã na floresta
Depois do «Ámen» sinto-me libertado e ouço-me a dizer que nós vamos andando e que de certeza ainda nos voltamos a ver, quando o grupo dava sinais de querer prolongar um pouco a pausa. «Afinal temos o mesmo caminho», digo eu. O que aquelas pessoas pensam de nós os dois, nem quis estar a matutar nisso. E também no que a Betina pensou de nós…. Bem, ela conhece a nossa maneira de pensar e está safa. Ela cantou. Mas eu não é a primeira vez que me sinto um pouco deslocado, embora nunca ninguém me tenha tratado dessa maneira nem me tenha atirado à cara a minha maneira de encarar a vida. Em lado nenhum, até agora, tínhamos encontrado rejeição quando dizíamos abertamente, como sempre, o que pensávamos. Este pensamento volta a animar-me. E quando a Betina diz depois que foi muito bom termos seguido em frente, percebi que também não nos levou a mal. Talvez, ou de certeza, eu me preocupe demasiado com isto.

O banco de Esther Heiße
Caminhamos agora em direção à grande floresta entre Königsbrück e Tauscha, onde, como sabemos pelo Sigmar, foi especialmente difícil reencontrar o traçado do caminho. Muitas vezes só era possível orientar-se pelas copas das árvores, que, tendo o caminho por baixo, formavam uma abertura para o céu. Foi Esther Heiße quem, muito jovem (tinha apenas 23 anos), deu um contributo decisivo para a redescoberta, a cartografia e a sinalização do Ökumenischer Pilgerweg. E em sua honra os membros da associação local de património de Königsbrück ofereceram, nesta floresta, um banco de pedra com uma inscrição. Com um pretexto, atraíram-na à floresta no dia do seu aniversário para lhe entregar, cheios de gratidão, o presente. Uns vândalos teriam andado a estragar o abrigo, era a história do engodo. Indignada, foi de bicicleta até ao suposto local do crime, onde encontrou os amigos que a queriam felicitar. Tudo isto também o soubemos pelo Sigmar. E assim estamos agora diante do banco, a pensar na mulher que tanto fez por este caminho. Pois é, e certamente era mesmo essa a intenção das pessoas de Königsbrück.

Escuta! Javalis!
Seguimos pela floresta que parece não ter fim. Ramos a estalar no mato fazem-nos suspeitar de javalis. A Betina fica parada minutos a fio para ver se descobre algum. Mas nada. A floresta vai rareando e caminhamos em direção a Tauscha. Na aldeia somos recebidos por um banco decorado com símbolos da vieira e por um painel informativo. Neste painel ficamos a saber que aqui em Tauscha há uma coisa muito especial no caminho de peregrinação: uma figura de madeira que representa Santiago. Mas a pequena igreja está fechada. À entrada do cemitério, porém, está afixado um painel informativo. Como é costume nos albergues, tem um número de telefone.

O Santiago de Tauscha
Telefonamos e pouco depois chega uma mulher a toda a velocidade na sua bicicleta, para abrir a igreja. Lá dentro, um espaço bem cuidado e lindamente restaurado, mas do Santiago nem sinal. Está atrás de uma porta de vidro fechada à chave. Depois de um assalto à igreja em 1972, reforçou-se aqui a segurança. Nessa altura foram roubadas duas estátuas valiosas, um crucifixo de porcelana de Meissen e uns candelabros. O Santiago deixaram-no ficar. Aos ladrões pareceu estar em muito mau estado, porque já tinha os braços partidos. Isso salvou à pequena igreja pelo menos esta joia. O crucifixo foi substituído por uma cópia e está em cima do altar. A igreja tem agora um alarme contra intrusão e infelizmente está sempre fechada. Mas para os peregrinos de passagem foi criado este serviço de abertura, que estamos agora a usar. Agradecemos à simpática senhora, que nos contou a história da igreja e do seu Santiago, e fazemos depois uma pequena pausa junto ao lago da aldeia. Hoje temos um tempo de rei e um céu que dá muita alegria sobretudo ao fotógrafo que há em mim. Num firmamento azul-aço pairam nuvens brancas como couves-flor.

Nuvens como couves-flor
A floresta acaba por agora e seguimos por um caminho rural, de onde se tem uma vista desafogada sobre os campos à volta. Um céu sem nuvens é aborrecido para um fotógrafo. Hoje não me aborreço. Mas sentimos muito nitidamente o vento frio de leste, que vai refrescando cada vez mais e nos obriga a tirar e voltar a vestir os casacos. Com casaco transpira-se por causa do sol intenso, e sem ele o vento atravessa o polar, de modo que se fica a tiritar com a pele molhada de suor. Ao menos o vento vem de trás e literalmente empurra-nos pelo caminho. Depois do caminho de gravilha vem uma estrada asfaltada com pouco trânsito, pela qual seguimos agora até Thiendorf.

Pausa em Thiendorf
Aproveitamos a paragem de autocarro à saída da aldeia para uma pequena pausa. Já não pode faltar muito até Schönfeld. A autoestrada ouve-se logo a seguir a Thiendorf, mesmo contra o vento. Por um pequeno túnel passamos por baixo da A14 e pouco depois alcançamos os seis peregrinos com quem já nos tínhamos cruzado. Tinham-nos ultrapassado em Tauscha, enquanto visitávamos a igreja. Somos cumprimentados com simpatia. Ao que parece, não nos levaram a mal a gafe da manhã. Quando falo do Santiago de madeira da igreja de Tauscha, estendem-me um cartão de visita: «Fotografaste-o de certeza, não?» Claro, digo eu, e prometo enviar as fotografias, o que entretanto já fiz. Antes da localidade de Schönfeld damos com a B98, ao longo da qual entramos na povoação.

Castelo de Schönfeld
Logo à entrada da localidade vê-se o Castelo de Schönfeld. É lá que fica o nosso albergue de hoje. O enorme conjunto do castelo, em que entramos pouco depois, já está em grande parte restaurado. Mas algumas partes ainda dormem o sono da Bela Adormecida. Pousamos as mochilas num conjunto de bancos e esperamos que nos deixem entrar no albergue. Até lá ainda falta algum tempo. A Andrea e a Betina voltam à localidade para investigar onde se pode comer e fazer compras. Mas pouco depois regressam sem resultado. As crianças a quem perguntaram também não tinham bem a certeza, falaram vagamente de uma geladaria, mas que fica longe. O que é longe? É relativo. Eu aproveito o tempo para dar uma volta pelo vasto parque do castelo.

A Betina em cima da Eierschecke
Por isso decidimos continuar a nossa busca na localidade depois de nos instalarmos no albergue. As duas mulheres voltam a sentar-se nos bancos e a Betina adormece outra vez num instante, ficando deitada no banco toda torta. Depois de conseguir voltar a mexer o pescoço dorido, faz mais uma tentativa na tenda montada atrás do castelo, onde parece que hoje ainda vai começar uma festa. Mas é despachada com as palavras: «Isto é um evento privado.» Nós ficávamos contentes com uma salsicha. Na mochila ainda tenho as três salsichas de Kamenz compradas em Königsbrück. Talvez as possamos aquecer mais logo no albergue.

No albergue do Castelo de Schönfeld
Não podemos. Porque o albergue revela-se muito espartano. A Armenhaus estava quase mais bem equipada. Pelo menos estava quente e era muito mais acolhedora. Aqui há, é verdade, grandes radiadores por baixo das janelas novas. Mas continuam frios depois de eu abrir as válvulas. Vários papéis apelam a que, depois de usar o albergue, se voltem a pôr as válvulas dos radiadores na posição antigelo, o que se revela um pouco absurdo, já que o aquecimento fica sempre frio. Aliás, este albergue dá uma impressão algo desleixada. Em vez de uma explicação pessoal por parte da senhora com ar pouco entusiasmado que nos tinha aberto a porta, há papéis com regras de conduta afixados por todo o lado.

Aqui «residimos» nós
Duas divisões despidas oferecem lugar em colchões a pelo menos 6 peregrinos. Num canto há um velho armário de cozinha e uma mesa com várias cadeiras. Ao menos há uma chaleira elétrica. Ao virar da esquina, uma pequena masmorra: a casa de banho. No cubículo minúsculo, o sítio para lavar: um lavatório igualmente minúsculo. E é tudo. De um castelo eu esperava, não sei bem porquê, outra coisa. Pois, a vida às vezes é assim. Espera-se pouco e recebe-se muito (como na Armenhaus) e no dia seguinte julga-se que se vai entrar num castelo de conto de fadas e encontra-se um alojamento frio e primitivo. Sim, é essa a palavra certa. Alojamento, é assim que quero chamar a isto, nem mais nem menos. Temos um teto sobre a cabeça, podemos deitar o corpo cansado e lavar-nos, fazer café e usar uma casa de banho. Hmm, que mais é preciso? Estou outra vez a exigir demasiado. E volta-me à cabeça um ditado a que na verdade gosto de me agarrar: «O turista exige. O peregrino agradece.» E assim, apesar das circunstâncias, estou grato por este alojamento. Para o café ainda temos a Eierschecke do Sigmar, que a Betina trouxe até aqui na sua grande mochila. E num instante estão o café e o bolo na mesa. Afinal sempre dá. Já fica acolhedor. E fica ainda mais acolhedor quando deixamos o secador de cabelo da Betina a trabalhar um bocado (sim, ela trouxe um secador!). Ao menos este traz algum calor à divisão.

Sol de fim de tarde em Schönfeld
Aqui está cada vez mais frio e decidimos voltar à localidade. Aos últimos raios de sol do dia, sentamo-nos em frente a uma espécie de centro comercial, observados com desconfiança pelos vizinhos mesmo em frente. A Betina, sem mais demoras, colocou os conjuntos de mesas e bancos de cervejaria que estavam à porta do talho de maneira a que o sol nos bata na cara. Hoje, sábado, as lojas já fecharam todas. Esperamos então que abra a taberna da aldeia, pela qual acabámos de passar. E eu ponho-me a pensar em como olharia lá para fora, da minha casa, se mesmo em frente estivessem uns forasteiros com roupa de caminhada um pouco encardida a vadiar na rua. Mas já não vão ter de aguentar este espetáculo por muito tempo. Porque o sol foi-se e a taberna está mesmo a abrir. Pomos então tudo outra vez como estava (somos peregrinos arrumados!) e seguimos para a estalagem.

Jantar em Schönfeld
Entramos na sala e logo receamos ser postos na rua outra vez. Ao que parece, está a decorrer aqui um evento privado. Mas somos convidados a entrar sem complicações e em voz alta. A mesa junto ao fogão é mesmo a certa para nós. E num instante estamos em pleno encontro de antigos alunos, que é o que a festa afinal é. A Betina senta-se à frente e encarrega-se de fotografar o alegre grupo com as várias máquinas fotográficas que lhe vão passando. Já é gente de uma certa idade (refiro-me aos ex-alunos, não à Betina!) e de cada vez que chega um novo colega há uma grande algazarra. A comida é ótima, boa comida caseira, como se espera de uma taberna de aldeia. Na verdade, eu queria ficar ainda um bocado junto ao fogão quente, porque a ideia de voltar ao alojamento frio não é nada agradável.

O castelo à noite
Mas lá nos pomos a andar, despedimo-nos dos outros clientes e voltamos ao castelo. A festa atrás do edifício ainda está no auge. Alguém canta ao vivo Schlager alemães. Os ensaios já os tinha escutado à tarde e soavam pavorosos. Recolhemo-nos ao nosso albergue frio e ficamos ainda muito tempo sentados em frente ao ecrã minúsculo do meu telemóvel. Tenho lá umas coisas divertidas do YouTube: Uwe Steimle, Elsterglanz, Kurt Krömer, Rainald Grebe e H. P. Kerkeling. A Andrea já conhece tudo. Mas a Betina partiu-se a rir. Ainda faço aparecer da mochila, como por magia, três garrafas de cerveja e, apesar do frio, a noite acaba por ser divertida.
O dia da amabilidade: Schönfeld – Großenhain – Skassa

Prontos para partir
Na noite passada, mais uma vez, a compra dos sacos-cama novos e mais quentes compensou. Está um frio de rachar dentro das paredes grossas do castelo. Ao pequeno-almoço, que hoje, por falta de reservas, volta a ser um pouco mais magro, o secador de cabelo da Betina volta a trabalhar sem parar. Há os pães do dia anterior e café solúvel. Eu faço um chá de limão quente, que combina melhor com as temperaturas que reinam na sala. Pelo menos lá fora parece estar cada vez mais quente, porque o sol sobe num céu quase sem nuvens. Antes de partir, tiro ainda algumas fotografias do castelo, que esta manhã se apresenta com uma luz melhor. E lá vamos nós, de mochila às costas, através de Schönfeld.

O corta-relva biológico
À saída da localidade, felizmente, deixamos de novo a B98 e viramos à esquerda para uma estrada asfaltada mais pequena. Aqui encontramos também a «gelataria» que as crianças nos tinham descrito no dia anterior. É difícil reconhecê-la como tal. Também um corta-relva biológico num prado à beira do caminho me merece uma fotografia. Quem olhar com mais atenção vê geada nos prados, ali onde o sol ainda não chegou. Mas o sol sobe cada vez mais alto no céu e já se sente o calor nas costas. As longas sombras no caminho denunciam, porém, que ainda é muito cedo.

Jogos de sombras

Kronospan
Do lado direito, é impossível não ver uma grande zona industrial. É a fábrica da Kronospan em Lampertswalde. Felizmente, a direção do vento é favorável e não apanhamos com os fumos. Em contrapartida, sentimos cada vez mais o cheiro de um enorme estábulo de vacas que vai tresandando à entrada de Quersa. Em Quersa, a Betina muda de repente para o outro lado da rua e vejo-a a conversar com uma senhora idosa que está junto a um carro, em frente de uma grande quinta. Estou a ver bem? Sim, a Betina acena-nos. «Perguntei simplesmente à senhora se havia na aldeia algum sítio onde se pudesse beber um café.» (O nosso solúvel da manhã afinal não deve ter sido o ideal.) «E ela convidou-nos para a casa dela», conta a Betina.

A simpática Helga
A Helga, assim se chama a senhora, convida-nos também a nós a entrar em casa sem pensar duas vezes. Deixamos as mochilas lá fora no pátio. E num instante estamos sentados na pequena cozinha. «Têm de desculpar o aspeto disto. Ontem tivemos uma festa e ainda não arrumei», é assim que tenta, sem necessidade nenhuma, desculpar a desordem no seu reino. E logo começa a fazer café para nós. «Ainda tenho no frigorífico salada em camadas de ontem e coxas de frango assadas.» E num instante estão em cima da mesa, ao lado das nossas chávenas de café, duas grandes taças. Mal a conseguimos travar, porque logo vai ainda buscar bolo ao armário e põe-no na mesa mesmo à frente do nosso nariz.

Quando menos se espera
Com uma colher grande, serve-nos depois uma boa dose da saborosíssima salada em camadas no prato. Temos de travar a Helga na sua amabilidade, porque cada vez mais coisas vão encontrando o caminho até à mesa da cozinha. Pelo meio, conta-nos da família, das doenças graves que teve de suportar nos últimos tempos e porque nos convidou a entrar. «Não convido qualquer um para a minha casa», sublinha. «Para isso é preciso ter algum conhecimento das pessoas», continua. Bem, pelo menos não parecemos causar a pior das impressões em quem nos rodeia, penso eu. A Helga parece feliz por alguém ter tempo para a ouvir, embora repita várias vezes que os filhos aparecem logo quando ela precisa de ajuda.

A Helga com a Betina
O filho, que vive com ela na casa, entra na divisão e fica um pouco admirado. Então é verdade, ela não deixa mesmo qualquer um entrar na sua cozinha. Vem da caça. Ao que parece sem sucesso, porque depois de um cumprimento breve desaparece para a sala ao lado. Só o cão dele, um teckel de pelo duro, fica. Está completamente encharcado e a Andrea esfrega-o um pouco com a manta dele. Ele deixa-se ficar e parece gostar. A Helga entusiasmou-se a falar e a sua bondade e amabilidade são esmagadoras. Quase não nos atrevemos a levantar-nos e a despedir-nos. Mas temos de continuar. Por isso agradecemos educadamente à nossa simpática anfitriã, tiramos ainda algumas fotografias, das quais, assim decidimos, queremos enviar algumas à Helga, e saímos de casa. A Helga acena-nos e nós esperamos que ela fique ainda por muito tempo para a família e também para os peregrinos que por ali passam. Por isso, se alguém passar por Quersa, pergunte simplesmente pela Helga Händler e mande-lhe cumprimentos nossos. Seria simpático.

Antes de Großenhain
Quersa revela-se uma aldeia agrícola comprida, com muitas destas quintas de três alas lindamente restauradas, como aquela onde a Helga vive. Pouco antes da saída da localidade, o caminho volta a afastar-se da B98 para a direita e seguimos até uma passagem de nível. Aí é preciso ter atenção, porque logo a seguir à passagem de nível há que deixar a estrada para a esquerda e seguir por um caminho de terra que vai mesmo ao longo do aterro da linha férrea em direção a Großenhain. Daqui já vemos a alta torre da Marienkirche desta antiga cidade de guarnição. Durante alguns quilómetros caminhamos por campo aberto ao longo da linha do comboio. Aqui o vento tem a vida facilitada. E, tal como no dia anterior, está bastante fresco. O divertido tira-casaco-põe-casaco recomeça. Pouco antes de Großenhain chegamos a Folbern e aí viramos à direita para a antiga B98. Depois da conclusão da nova variante e da mudança da B98, ficou tudo bastante sossegado por aqui. Além disso, hoje é domingo e a esta hora, tão perto do meio-dia, de qualquer forma não há muito trânsito. Como hoje é domingo e no destino, Skassa, não há possibilidade de arranjar nada para comer, aproveitamos a primeira oportunidade para reabastecer as nossas provisões. Primeira diretiva da peregrinação: aproveita a oportunidade!

Almoço na bomba de gasolina
E a primeira oportunidade é uma bomba de gasolina. A oferta, porém, é bastante modesta. Na vitrina resistem ainda duas baguetes recheadas e as empregadas não dão a impressão de ter muito gosto no trabalho. Pelo menos não correm o risco de ser associadas ao título deste texto. De má vontade, preparam mais duas baguetes para nós. Se eu conhecesse outro sítio para fazer compras, ter-me-ia ido embora. Assim, porém, devemos estar a fazer-lhes a faturação do dia; bebemos ainda um café ou uma cola e saímos da bomba de gasolina com uns quilos a mais às costas. Lá dentro há agora algumas garrafas de cerveja e de vinho tinto, uns pãezinhos e as quatro baguetes. E também uns BiFis que pesam nas costas, além do que já estava na mochila.

Centro histórico de Großenhain
Enquanto entramos na cidade, chamo a atenção para os muitos telhados novos. Großenhain foi atingida há dois anos por um terrível tornado. Numa faixa com 2 quilómetros de largura, daqui até Mühlberg, junto ao Elba, quase nenhuma casa e quase nenhuma árvore foram poupadas. Por isso veem-se hoje aqui muitos telhados novos e as marcas nas copas das grandes árvores, que parecem estranhamente depenadas. Seguimos agora ao longo do Große Röder em direção ao centro. Ao entrar no centro histórico já se vê o edifício maciço da Marienkirche e percebe-se porque é também chamada a irmã mais nova da Frauenkirche de Dresden.

Marienkirche de Großenhain
Deste lado parece mesmo um edifício circular com uma grande torre por cima, ou seja, é muito parecida com a irmã mais velha de Dresden. Não admira, já que o construtor da Marienkirche, Johann George Schmidt, também trabalhou na Frauenkirche de Dresden. Só quando se dá a volta é que se reconhece a nave em forma de T. É a única igreja da Saxónia com esta forma peculiar e por isso é algo especial. Claro que queremos entrar e andamos um bom bocado à procura da entrada certa. Só depois de meia volta descobrimos a porta aberta. Entramos e também no interior a decoração lembra a Frauenkirche. As galerias estendem-se, como as filas de um teatro, em curvas por vários andares à esquerda e à direita do altar, para o qual se caminha a partir do portal principal. Lá no alto fica o órgão e, por baixo, bem acima do chão, o púlpito. Os bancos atravessam o espaço nas mesmas curvas que as galerias. Tudo isto parece muito vivo e, ao mesmo tempo, sublime. A Betina fica minutos sentada no banco a olhar para cima. Também o meu pescoço começa a doer, porque já há bastante tempo que tenho a cabeça virada para cima. Acho que os construtores queriam isso mesmo. Chama a atenção que grandes partes das galerias sejam envidraçadas. São os chamados oratórios. As famílias abastadas podiam comprá-los, o que serviu para financiar a construção. O mobiliário destes espaços está parcialmente preservado.

Altar-púlpito da Marienkirche
A igreja tem uma história atribulada. Das igrejas anteriores que aqui existiram, pouco se sabe. Em 1748 terminaram as obras da atual Marienkirche. Nessa altura, porém, a igreja recebeu apenas o equipamento mínimo. Só sete anos depois recebeu o seu impressionante altar-púlpito e só em 1802, após dois anos de obras, foi inaugurada a torre. O órgão é de 1902 e foi revisto em 2001. Em 1972 a igreja foi restaurada com os meios e as possibilidades da época. E em 2004, depois de nova intervenção, ganhou o aspeto atual. Passeamos agora até à praça do mercado, onde se encontram a imponente câmara municipal de 1876, em estilo neorrenascentista, e, no lado leste da praça, a fonte de Diana. Conheço Großenhain só de passagem de carro e, claro, nunca passo por aqui. Por isso fico contente por ter, desta vez, mais tempo para a cidade.

Câmara municipal de Großenhain
Neste domingo há pouca gente na rua. Só uns motociclistas estacionaram as motas e fazem uma pausa na esplanada de uma gelataria. Fazemos o mesmo e sentamo-nos ao sol. O vento, no entanto, está fresco, de modo que é preciso um casaco. Lá temos de o tirar outra vez da mochila… A Betina prefere coisas salgadas e pede uma tosta. Eu peço uma Radeberger. Só a Andrea recebe a sua taça de gelado. É uma espécie de «running gag» entre nós, que nasceu durante as nossas caminhadas nos Alpes. Quando tinham «andado bem», as crianças recebiam sempre um gelado. A Andrea adotou isso depressa e apanhou o comboio. Por isso, quando pelo caminho aparece uma gelataria por perto, não tenho de esperar muito até a Andrea dizer: «Então? Hoje andei bem.» Quem conseguiria dizer que não?

Em frente da gelataria na praça
Não sou muito de gelados, daí a cerveja. Mais tarde juntam-se a nós também os seis peregrinos que já conhecemos e que tínhamos visto ao longe antes de Großenhain. Entretanto, a coligação dos que preferiam juntar-se a nós cresceu entre eles. Já abertamente, alguns do grupo rebelam-se e anunciam que preferiam vir connosco, quando nos levantamos para seguir caminho. Mas a disciplina de grupo vence e seguimos sozinhos. Num grande arco pelo centro histórico, vamos até ao muito bonito parque da cidade e depois por bairros de moradias bem cuidadas na periferia. Por uma ciclovia de vários quilómetros pavimentada com blocos de betão, seguimos diretamente para Skassa.

Paisagem antes de Skassa
A Kleinraschützer Heide estende-se à direita deste caminho e encontramos muitos excursionistas que escolheram esta zona de lazer às portas de Großenhain como destino de uma caminhada ou de um passeio de bicicleta. Depois da ponte sobre o Große Röder, entramos na localidade de Skassa. Em frente do quartel dos bombeiros, um homem anda a mexer numa placa: «Festa do Vinho de Skassa, 3 de outubro». Que pena, nessa altura já cá não estamos. Mesmo em frente vejo, no muro do jardim paroquial, uma placa a indicar o albergue. Fica aqui, na casa paroquial. À entrada do terreno está pendurada uma grande faixa: «Principado de Platanien»; ao lado, numa estrutura instável de paus, baloiça um pequeno sino. Sinto-me tentado a puxar a corda e tocar, mas acabo por não o fazer. Prefiro tocar à campainha da porta da casa. Quem a abre é uma menina pequena, que logo volta a desaparecer, um pouco assustada. Durante minutos…. nada. Por fim, chega a dona da casa.

Casa paroquial de Skassa
Tínhamos avisado que vínhamos e devíamos chegar antes das 15h30, porque ela quer ir à tarde com os três filhos à missa das crianças em Riesa. Por isso tem pouco tempo para nós, o que também não é grave, pois orientamo-nos depressa. O mais importante hoje é um duche. É que já há dois dias que não tínhamos oportunidade de desfrutar de um. Será que foi por isso que a menina fugiu? Ficamos com dois quartos e encontramos também uma pequena sala de estar. Em baixo, por trás da sala paroquial, há uma cozinha muito bem equipada, onde finalmente podemos preparar (leia-se aquecer) as nossas salsichas de Kamenz, que comprei em Königsbrück. Mas até ao jantar ainda há tempo. Lavo as minhas meias e uma t-shirt. E enquanto a Andrea e a Betina tomam duche e também lavam roupa, vou à igreja ali perto, que felizmente está aberta. Fico bastante surpreendido com a bela decoração e também com o ótimo estado do interior. Posso até subir à galeria. E quando descubro que também a porta de ripas da torre não está fechada, subo-a pelos degraus de madeira com ar de podres. Com cuidado, tento pisar as tábuas só perto das vigas. Com o estado preocupante do soalho, tenho medo de cair por ali abaixo.

Na igreja de Skassa
Tiro algumas fotografias do interessante mecanismo do relógio da torre, antes de voltar a descer com cuidado. Depois fecho outra vez todas as portas e apago a luz. Tenho de me despachar, porque a igreja só está aberta até às 18h. As mulheres de certeza não iriam procurar-me na torre da igreja, se eu ficasse lá fechado. Mas chego a tempo do jantar. A Betina está ao telefone na cozinha quando eu entro de rompante. Na verdade não a quero incomodar. Mas, antes que eu consiga retirar-me, ela sai da sala. Tenho assim oportunidade de preparar o jantar. Como sempre, não é nada abundante quando não temos oportunidade de ir, por assim dizer, comer «fora». Em Skassa, infelizmente, não há essa oportunidade.

Há Kamenzer e Krostitzer
E assim, hoje há outra vez só salsichas de Kamenz quentes com mostarda de Bautzen e cerveja Ur-Krostitzer, de que a Betina, para minha alegria, fica fã. A cerveja é feita muito perto de onde moramos, é por assim dizer a cerveja da minha terra, mesmo que há algum tempo a tenha desprezado e, por assim dizer, a tenha traído. Já não me sabia bem e também estava um bocadinho amuado. É que, no tempo da RDA, a cerveja de Krostitz quase só se vendia «por baixo do balcão». Eram precisas as chamadas «cunhas», quando se queria uma quantidade maior. Isto tomou proporções grotescas, que culminaram numa «guerra da cerveja de Delitzsch». Gente de Bitterfeld, cuja cerveja simplesmente não se conseguia beber e que tinha «cunhas» em Delitzsch, vinha com reboques atrelados aos carros e levava a cerveja às grades pela porta das traseiras do supermercado. Isto, claro, irritava os sedentos habitantes de Delitzsch, que davam por isso e só recebiam a «sua» cerveja racionada. Alguns pegaram em facas e furaram os pneus dos reboques dos de Bitterfeld. Seguiu-se uma cena de pancadaria. Hoje parece uma loucura e inimaginável, quando se olha para uma loja de bebidas. Foi certamente esta variedade que provocou depois as minhas infidelidades em matéria de cerveja. (Só para animar, assim de passagem.)

Na sala de estar
Depois do jantar, retiramo-nos para a sala de estar, lá em cima. Uma luz suave atravessa um pano branco pendurado solto debaixo do teto. Consegui pôr a funcionar um aquecedor de ventilação, que zune ruidosamente no canto da sala. Pouco a pouco, com o calor a aumentar, também aqui fica acolhedor. Esparramamo-nos nos cadeirões confortáveis, bebemos ainda qualquer coisa e fazemos o balanço do dia. O ponto alto de hoje foi, claro, a Helga, que sem rodeios nos convidou para a sua cozinha e nos impressionou muito com a sua amabilidade. Em contraste – as duas empregadas da bomba de gasolina, que são pagas, afinal, para serem amáveis, mas não o mostraram. E é por isso que chamo a este dia o dia da amabilidade. Um sorriso, um gesto ou uma palavra amável – e logo se quebra o gelo. Muitas vezes já encontrámos esta amabilidade, um sorriso ou um gesto simpático pelo caminho. Outros, pelo contrário, são o seu próprio obstáculo, de cara amarrada, desconfiados e sem compreensão. Na verdade, até dá pena deles.
O dia da despedida: Skassa – Strehla
Esta noite foi curta demais. Mesmo assim, acordo antes do despertador. Na penumbra, procuro desesperadamente a capa do meu saco-cama. Hoje ando um bocado fora de mim. Afinal ontem à noite sempre se fez tarde. E também acordei regularmente. Nomeadamente quando o aquecedor ligava sozinho de meia em meia hora. Lá consigo, ainda assim, juntar as minhas coisas todas e arrumá-las na mochila. Hoje está bastante mais leve do que ontem.

O caminho depois de Skassa
É segunda-feira e o destino, Strehla, é uma vila onde de certeza há onde fazer compras. A Andrea também não consegue arrancar bem. Depois de um café, porém, o mundo já parece melhor. Despedimo-nos da nossa anfitriã, que de certeza já está acordada há mais tempo, porque tem de levar as crianças à escola. Também hoje o tempo decide mimar-nos com sol. E assim vamos aquecendo nos primeiros quilómetros, que seguem por um caminho agrícola estreito, quase coberto de vegetação. De qualquer forma, de manhã preciso sempre de pelo menos meia hora até as pernas fazerem o que devem. Mas já não há comparação com as primeiras etapas, quando elas passavam o dia inteiro sem bem saber o que fazer.

No horizonte, a Wacker Chemie em Nünchritz
A Wacker Chemie de Nünchritz envolve-se no horizonte em espessas nuvens de fumo. Já passei muitas vezes de carro pela fábrica. Mas nunca lá tinha visto tanto fumo. A fábrica fica mesmo junto ao Elba, antes de Riesa, e nos últimos anos foi muito ampliada. Os nossos seis valentes companheiros ainda tinham ido para lá ontem. Mas aquilo não tem ar nenhum de idílico. Viramos à direita, deixando Nünchritz à esquerda, e seguimos por Weißig até Roda. Aí, no Dorfkrug, a família Linke serve a partir das 11h uma refeição do peregrino. Infelizmente, chegamos cedo demais.

Campo de girassóis depois de Roda
O troço a partir de Roda é para saborear. Porque depois disso, durante muito tempo, não haverá oportunidade para tal. Caminhamos junto a grandes campos de girassóis, já prontos para a colheita e por isso com um aspeto bastante triste. O bosque que se segue será hoje o último. E assim cada um desaparece mais uma vez atrás dos arbustos. Já ouvimos a movimentada B98, com que nos fomos cruzando vezes sem conta nos últimos dois dias. Agora temos de caminhar ao longo dela por uma ciclovia durante um bom bocado, até Zeithain. Mas primeiro chegamos a Glaubitz. No meio da localidade, em frente do lago, vemos uma pequena loja aberta.

Snack-bar em Glaubitz
O que é que aprendemos? 1.ª diretiva da peregrinação: aproveita a oportunidade! E num instante estamos lá dentro. É quase um pequeno supermercado com uma snack-bar ao lado. A snack-bar, porém, ainda está fechada. Perguntamos por um café e a simpática dona abre a snack-bar para nós. Levamos uns bolos da loja e assim ficamos sozinhos na sala a fazer uma pausa. As mulheres tagarelam animadamente. É qualquer coisa sobre gatos, é o que mal consigo perceber, enquanto luto para manter os olhos abertos. Já o escrevi: hoje ando um bocado fora de mim. Estou cansado. É isso. Só há uma coisa que ajuda: continuar a andar.

Paragem forçada antes de Zeithain
Pagamos, portanto, e pomo-nos a caminho de um dos troços mais feios e irritantes da nossa caminhada. Sempre pela ciclovia asfaltada, seguimos ao longo da B98 em direção a Zeithain. Alguns ocupantes dos carros olham para nós com um ar estranhamente compadecido ou incrédulo quando passam a toda a velocidade. Também preferíamos ir por outro lado, apetece-me gritar-lhes. Pouco antes da localidade, o trânsito ensurdecedor deixa-nos e segue para Riesa. Numa cancela da linha férrea, esperamos que nos deixem entrar na localidade. Zeithain é uma terra bastante bonita e grande. Mas o que vem a seguir é um abuso. Aqui é fechar os olhos e seguir em frente. É que agora já nem sequer há uma ciclovia que possamos usar. É uma estrada secundária, sim. Mas por ela circulam imensos veículos. Muitos deles grandes camiões basculantes, que levam material de construção aos montes da areeira de Zeithain, junto à qual passamos a toda a pressa por esta estrada.

Exercícios de relaxamento
Apanho-me a andar cada vez mais depressa, para fugir o mais rapidamente possível a esta loucura. Assim, o nosso pequeno grupo vai-se espalhando um pouco. Bastante depois de mim chega a Betina e, muito mais tarde, também a Andrea, a arrastar os pés, enquanto eu espero pelas mulheres no desvio para Gohlis. A Betina fica deitada do outro lado da estrada com as pernas no ar. Está a fazer exercícios de relaxamento. Talvez eu tenha mesmo andado depressa demais neste troço. A Andrea também não traz uma cara feliz quando chega. Quando voltamos a estar juntos, porém, prometo que agora vai melhorar. «Em Gohlis chegamos ao Elba e depois seguimos pela ciclovia do Elba. Isso de certeza vai ser mais bonito», digo confiante. Primeiro, no entanto, é continuar a andar no asfalto até Gohlis.

Panorama junto ao Elba perto de Gohlis
Em Gohlis há muitas obras. Estão a renovar a rede de esgotos. Mas também nos terrenos se veem muitas obras. Em junho deste ano, o Elba foi aqui mais uma vez um hóspede indesejado. Depois da cheia do século de 2002, cujas marcas do nível da água se veem nas paredes de muitas casas, este ano a cheia voltou a subir quase até à mesma altura. Nota-se que algumas pessoas da terra desistiram depois disso e se mudaram. Saímos da estrada principal e estamos agora na ciclovia do Elba.

Todos querem ficar na fotografia
À nossa esquerda, o rio cintila ao sol e nos viçosos prados do Elba há alguns póneis, que se empurram para entrar na imagem quando os fotografamos. Ao ver isto, mal se consegue imaginar como é possível este rio subir tanto. Há bastantes metros de desnível entre a superfície da água e o caminho. Diante de alguns terrenos, os proprietários construíram eles próprios muros contra as cheias com estacas-pranchas. Mas também este ano não conseguiram impedir que os rés-do-chão das casas ficassem inundados. Em muitas casas vê-se que o piso de baixo ainda não está habitado e que as janelas estão abertas para arejar. O reboco foi arrancado e só será refeito quando as paredes estiverem secas outra vez.

Pausa prolongada junto ao Elba
Olhamos para o outro lado e vemos o idílio do rio a correr tranquilo. Num sítio abrigado do vento, debaixo de uma árvore, fazemos uma pausa, deitamo-nos na relva, comemos qualquer coisa e adormecemos. O sol queima-nos a cara e à noite há um escaldão na ponta do nariz. Este sossego é maravilhoso depois da estrada barulhenta. Aproveitamos o momento e quase não falamos, para não perturbar a calma. As botas de caminhada estão na relva e as meias podem arejar. Não sei quanto tempo ali ficámos deitados. E se eu não tivesse insistido em partir, teríamos ficado até à noite. Ao levantar-me, não consigo conter um gemido. Afinal o chão era bem duro e as pernas já se ressentem desta marcha forçada.

No dique do Elba
Devagar, passeamos pelo dique do Elba. Strehla, o nosso destino, já se avista, e também o barco com que queremos atravessar o rio. Passamos por um prado muito largo onde está toda uma armada de postes de iluminação, aparentemente sem sentido. É que por baixo não há nada senão erva. Decido perguntar ao barqueiro o que aquilo significa. Esperamos pacientemente no pontão até que algo se mexa na outra margem e o pequeno barco a motor se aproxime depressa. Tão depressa como veio, chegamos também à margem oposta. Mal tenho tempo de tirar umas fotografias.

Barco de passageiros em Strehla
Depressa, pergunto ainda ao barqueiro pelos postes de iluminação. Primeiro goza comigo e diz que é um campo de golfe. «Pois claro!», digo eu. «Agora a sério!», exorto-o a ser honesto. «É um recinto de festas», diz ele então. Ena, devem ser festas grandes, as que aqui se fazem. Tenho de estar atento a isso. Quando saímos do barco e subimos a íngreme rua de calçada, a Betina diz de repente que a viagem dela deve acabar hoje. Paramos em choque e perguntamos o que se passa. A Betina tem problemas no tornozelo e prefere parar antes que piore. Ela já nos tinha contado a história do tornozelo e compreendemos a decisão dela, por mais triste que seja. Em silêncio, censuro-me, perguntando-me se não terei andado depressa demais hoje, quando o percurso era tão monótono.

Câmara municipal de Strehla
Devagar e um pouco abatidos, subimos para a vila. Na praça do mercado, paro e reparo que as duas mulheres desaparecem dentro de uma loja. Voltam com sacos cheios e procuramos a morada do alojamento. Deve ficar perto da igreja, cuja torre se ergue bem à vista à nossa frente. Seguimos nessa direção, passamos pelo cemitério junto à igreja e chegamos à casa paroquial. Lá dentro está tudo às escuras. Tocamos à campainha e ninguém responde. Na janela está, como sempre, um papel com os contactos. Primeiro atende o padre ao telefone, que diz, porém, que não está em Strehla. Devemos falar com uma senhora mesmo em frente. Lá vou eu. Mas sem sucesso. Ela não reage ao meu toque insistente na campainha, nem a vejo atrás da casa, no jardim, onde também vou ver por indicação do padre.

O albergue de Strehla
Ao albergue chega-se à esquerda da casa paroquial, por um portão de grade aberto. Fica, por assim dizer, mesmo atrás da casa paroquial. É um edifício bonito de dois pisos e causa-nos boa impressão. Mas de que serve isso, se não conseguimos entrar? Com intervalos de 15 minutos, volto a tentar a campainha da casa em frente – sem sucesso. Depois ainda ando um bom bocado à procura do albergue da juventude, que aqui em Strehla é uma alternativa. Mas quando me parece longe demais, dou meia-volta e ligo outra vez ao padre. Ele explica-me amavelmente que a senhora devia estar em casa, mas dá-me ainda outro número de telefone em Strehla. Ligo então para lá e explico a situação. «Não há problema!», ouço, e «Estou já aí». Volto para a frente da casa paroquial, para esperar pela nossa salvadora. Nisto, uma mulher vem ter comigo e pergunta-me se fui eu que toquei à campainha dela. Os vizinhos tinham-lhe dito que tinha estado ali alguém que quase arrancou a campainha. «Bem, não toquei assim tanto, e a campainha ainda lá está», digo a brincar. Como se tivesse sido combinado, no mesmo instante aparece também ao virar da esquina a senhora a quem acabei de ligar. Tenho de me explicar de novo e peço desculpa pela impaciência.

O dormitório
Deixam-nos então entrar e, no andar de cima, encontramos um dormitório bonito, grande e luminoso, com 6 camas. Lá em cima há ainda uma cozinha grande e, em baixo, as casas de banho e os duches. Há até uma máquina de lavar e uma de secar roupa. Este albergue é muito recomendável, digo eu. Enquanto as mulheres se arranjam, pego na máquina fotográfica e vou outra vez à vila. Sempre que passava de carro por Strehla, reparava em duas torres. E sempre quis saber a que pertenciam e ir vê-las. Agora já sei. Pertencem ao castelo de Strehla, um antigo conjunto fortificado que, depois do Albrechtsburg de Meißen, é o mais antigo da Saxónia.

Castelo de Strehla
Já antes do ano 900 terá existido aqui uma fortificação eslava. Só mais tarde, por volta de 1550, se tornou um palácio. O conjunto é uma miscelânea de várias épocas, do gótico tardio ao Renascimento. Expropriado em 1945, foi usado no tempo da RDA como lar de crianças. Nessa época, muitos edifícios anexos foram demolidos. Hoje o castelo voltou a ser propriedade privada e foi parcialmente restaurado. Partes do pátio exterior são usadas como habitação. Muita coisa aqui continua a precisar de obras, é verdade. Mas uma visita vale sempre a pena. Depois de ter acrescentado mais umas fotografias ao meu cartão, volto para o albergue.

As duas torres do castelo
Para assinalar o dia, decidimos cozinhar qualquer coisa hoje. A Andrea diz à Betina: «Para ainda poderes provar os dotes culinários dele antes de nos despedirmos.» Mas, na verdade, não estamos muito com vontade de festejar. A Andrea e eu pomo-nos a caminho à procura do supermercado. Depois de alguns desvios encontramo-lo e, depois de pensar um pouco e de procurar entre as prateleiras, decido fazer massa. Com ela já tinha conseguido conquistar as senhoras no Camino Francés, mesmo que nessa altura tivessem todas bem mais de sessenta. Carregadíssimos, arrastamos os sacos de volta e começo logo com os preparativos.
Claro que também vêm umas garrafas de Krostitzer e de vinho tinto. Com a massa há salada e a Betina ainda me deu um bocadinho de peixe fumado. A refeição é verdadeiramente celebrada. É certo que não fico muito satisfeito com o molho da massa (tinha-me esquecido do alho), mas ficámos todos de barriga cheia. Hoje celebramos a despedida da Betina e, apesar do motivo mais triste, ainda nos divertimos muito.«Quando o teu pé estiver bom outra vez, fazemos o resto juntos», digo eu, e não é a brincar.
O dia com vista: Strehla – Börln

Por alguma razão, hoje levantar-me não tem graça nenhuma. Enquanto arrumamos as mochilas e tratamos da higiene matinal, a Betina já está a preparar o pequeno-almoço. Comemos os nossos pãezinhos em grande silêncio. «Mas vamos manter o contacto e vocês vêm visitar-nos», quebra a Betina o silêncio. «Claro que sim», digo eu, curto. E quem me conhece sabe que estou a falar a sério. Ainda hoje mantemos o contacto com muitas das pessoas que encontrámos nos nossos caminhos. Ainda há pouco tempo recebemos a visita do Thomas, da Baviera, que conhecemos em 2011 no Camino Francés, em Espanha. Ou o Martin, da Suíça, com quem falo regularmente por Skype. E depois os muitos e-mails que vão e vêm, da Iva, da Chéquia, do Jürgen, de Ulm, ou da Andrea, de Dortmund. Encontrámos mesmo bons amigos nos nossos caminhos de peregrinação. E agora é da Betina que, infelizmente, temos de nos despedir hoje.«Despedidas não são o meu forte», diz ela, quando estamos lá em baixo, à porta do albergue. «Nem o meu», digo eu, tentando esconder os olhos húmidos. Também a Andrea está comovida com a despedida. Dá para perceber. Abraçamo-nos e, ao afastarmo-nos, ainda nos voltamos várias vezes. Depois partimos e ficamos sozinhos. O marido da Betina vem buscá-la de carro e ela ainda passa o dia em Strehla.

Paisagem junto ao Liebschützberg
Saímos da cidade em silêncio. Esta manhã volta a estar bastante frio. Nos quintais vemos que já houve geadas noturnas. Uma leve névoa ainda paira sobre os campos. Mas o sol vai tratar de que isso não dure muito. O nosso primeiro objetivo do dia é o Liebschützberg, uma elevação visível de muito longe a norte de Oschatz. A colina tem 198 metros de altura e, tal como o vizinho Collmberg, é um ponto de referência bem reconhecível à distância. Por vontade de algumas empresas de materiais de construção do sul da Alemanha, a sua geologia deveria ter sido a perdição do monte em 2003. Planeava-se extrair granodiorito, um tipo de granito, numa área de 44 hectares. A área de extração situa-se a 100 por cento numa zona de proteção da paisagem, e a oposição não tardou. Um movimento de cidadãos, juntamente com a associação de proteção da natureza da Saxónia, tentou salvar a paisagem das escavadoras. Provavelmente com sucesso, já que agora, em 2013, continua a não se ver pedreira nenhuma.

Cata-vento e vista para Oschatz
O terreno sobe suavemente e, lá longe a sul, vemos na neblina as duas torres marcantes de Sankt Aegidien, em Oschatz. A cada passo a vista torna-se mais impressionante. A nordeste, olhamos para a planície do Elba até Mühlberg, onde se vê fumegar a torre de refrigeração e a chaminé da fábrica de açúcar. A noroeste, segue-se a grande área florestal da Dahlener Heide. E, em primeiro plano, a aldeia de Laas aconchega-se à encosta. A sudoeste, por trás da localidade de Liebschütz, desenha-se cada vez mais nítido, saindo da neblina, o Collmberg, com 320 metros de altura, a sua grande antena e a Albertturm.

No Liebschützberg
O Collm é a elevação mais alta na orla oriental da planície de Leipzig. Estamos agora pouco antes do cume do Liebschützberg e o panorama é fantástico. Numa área vedada está o velho moinho de vento de cavalete, neste momento coberto de andaimes e em restauro. Também aqui em cima existe, há algum tempo, uma estrutura de madeira com um sino, que é tocado nas missas ao ar livre. O Liebschützberg tem muitos usos. Além de eventos e atividades de lazer, é, durante a maior parte do ano, um lugar de sossego e descanso. E que aqui em cima pode ser solitário e tranquilo prova-o a presença de alguns grous. As aves migratórias, ariscas, estão na encosta a grande distância e observam-nos. Quando nos aproximamos, levantam voo, voam um bocado e restabelecem assim a antiga distância de segurança. Mas por vezes também é diferente. É que o monte atrai todos os anos milhares de habitantes dos municípios vizinhos, que aqui organizam grandes eventos como a fogueira da Páscoa, a festa do Liebschützberg, o festival internacional de papagaios de papel e também as já referidas missas ao ar livre.

A descer em direção a oeste
Tudo isto se pode ler aqui em cima em grandes painéis informativos e eu tentei memorizar uma parte. Porque é que não tenho uma fotografia deles? Não ficamos muito tempo aqui em cima, porque o vento sopra com bastante força. A partir daqui é sempre a descer até Lampertswalde. Logo à entrada da localidade, caminhamos ao longo de um muro grosso e alto e, no portão, damos com uma vieira de madeira. Então vamos lá espreitar! Atrás do muro esconde-se um verdadeiro pequeno paraíso. O que salta à vista é um plátano muito velho e muito grosso. Está num parque de palácio com lago e ilha, tal e qual como se imagina.

Parque do palácio de Lampertswalde
Entre as árvores há cabos esticados, de onde pendem guarda-chuvas. O que é que isto quer representar, penso eu, e começo por supor que se trata de uma obra de arte. Mas não, são abajures. Por todo o parque estão pendurados os guarda-chuvas coloridos e, por baixo, casquilhos com lâmpadas – que ideia tão simpática. Dois trabalhadores estão a arrumar e a varrer as folhas. Cumprimentamo-los com simpatia e vemos a esplanada de um pequeno café, onde também já alguém está atarefado. «Já está aberto?», pergunto. «Então abrimos já», diz o dono. Os dois trabalhadores também aproveitam logo o café para uma pausa.

Parque do palácio de Lampertswalde
Sentamo-nos ao sol, olhamos para os cisnes no lago do palácio e pedimos café e bolo. Pode haver coisa melhor? Pronto, está bem, eu comi uma salsicha. Agora tento marcar a nossa estadia em Börln, mas reparo que o número de telefone ou está errado ou está incompleto. Por isso ligamos à Betina, em Strehla, já que ela tem um guia do peregrino. Ela está na cidade e, claro, não o tem consigo. Mais tarde, porém, liga de volta e dá-nos o número certo. (Lembrei-me agora: também tenho de o corrigir na minha tabela. Falta, aliás, um algarismo.) O verdadeiro palácio de Lampertswalde já não existe. Ficava na grande ilha do lago, era portanto um palácio rodeado de água. Restam apenas alguns edifícios anexos.

Parque do palácio de Lampertswalde
Todo o conjunto dá uma impressão muito cuidada. Mas não é assim há muito tempo. Depois de os nazis terem expropriado os proprietários, o recinto foi-se degradando a olhos vistos. Depois da guerra, em 1947, o palácio foi demolido. O parque ficou ao abandono, o fosso foi entulhado com escombros e o lago do palácio ficou sem água. Depois da queda do Muro, os habitantes da terra tomaram conta do parque e, já em 1994, o conjunto estava recuperado na estrutura atual. É mesmo impressionante o que é possível quando uma aldeia se une. O parque e o Burgcafé tornaram-se um ponto de atração para os arredores, para turistas, caminhantes e, claro, também para peregrinos. Depois de recuperarmos forças, ainda damos uma volta pelo parque e saímos da localidade pela Axelallee.

O caminho antes de Dahlen
Lampertswalde é uma localidade muito comprida. E só dois quilómetros e meio mais a oeste é que saímos dela de verdade. A próxima etapa intermédia é a pequena cidade de Dahlen. A torre da igreja vê-se de longe. O caminho até lá é bastante idílico e passa por terreno ligeiramente ondulado, junto a um grande lago, até à entrada oriental da cidade. Quase sempre se vê a sul o Collmberg, que já deixámos para trás. Nos campos em redor há muitos veados, que fogem assustados quando nos aproximamos. Entramos na cidade de Dahlen por um caminho estreito e inclinado que desce do Burgberg.

Paisagem antes de Dahlen
Dahlen não é mesmo nada grande. E assim depressa estamos na praça do mercado, onde nos sentamos num banco mesmo ao lado do «Sackhupper». Segundo uma lenda, Dahlen ficou também conhecida como a «Sackhupperstadt», a cidade da corrida de sacos. O que parece ser verdade é que, no século passado, um dono de carroças organizava todos os anos uma festa para as crianças e inventou como nova diversão a corrida de sacos. É a esta história que é dedicado este monumento engraçado. Mas, nessa altura, de certeza que nos sacos de juta não estava escrito «LPG Dahlen». Olhamos à volta e descobrimos uma pequena padaria.

Monumento ao Sackhupper em Dahlen
Afinal também já são horas de um pequeno reforço e de um café. Tanto café como bebemos aqui nunca bebo em casa. Mas o que se há de fazer quando não se está a andar? Então, lá entramos na loja. Para o jantar e o pequeno-almoço, uns pãezinhos não seriam má ideia, e para agora dois cafés e duas fatias de tarte de fruta. Há tarte de ameixa, o meu bolo preferido. Pois, e de alguma forma a simpática empregada deve ter percebido pela nossa cara que preferíamos beber o café sentados. E logo põe duas cadeiras e uma mesinha minúscula ao lado do balcão. Não há mesmo muito espaço na loja e temos de nos espremer um pouco no canto para os clientes ainda conseguirem entrar.

Na padaria
Mas estamos sentados e muito gratos à senhora. A caminho da saída da cidade, passamos por um supermercado biológico. Aí abastecemo-nos ainda de bebidas. E logo a minha mochila volta a ter um peso que me faz gemer um pouco quando a ponho às costas. O troço seguinte segue durante muito tempo por uma estrada asfaltada em direção a Bortewitz. Só passados cerca de 2 quilómetros é que sai para a esquerda um caminho agrícola, ladeado por imensas árvores de fruto. Caminhamos sobre um tapete de peras a apodrecer. As vespas andam por ali e fazem um banquete. Não sei se as pessoas são demasiado preguiçosas ou se é proibido apanhar a fruta. Seja como for, antigamente eu ia sempre com o meu pai apanhar fruta e levávamo-la ao lagar, onde mais tarde havia mosto ou vinho de fruta. Hoje apodrece tudo nas estradas e caminhos. Isto irrita-me um pouco, mas também não posso fazer nada. As pessoas parecem preferir comer fruta da Nova Zelândia.

Casa paroquial de Börln
Como, apesar do número de telefone agora completo, não conseguimos falar com ninguém na casa paroquial de Börln, começamos a pensar onde poderíamos ainda passar a noite, quando vemos grandes fardos de palha à beira do caminho. «Só em último, último caso!», penso eu, quando a Andrea faz a sugestão. Depois entramos na localidade. De passagens de carro lembro-me de que aqui há muitos cercados para cavalos, cavalariças e um hotel. Estamos precisamente a passar por este último e vemos que está fechado. De resto, a localidade também dá uma impressão de «fechada». Quase metade das quintas está vazia. É mesmo estranho. Em Lampertswalde vemos uma aldeia florescente, com casas bonitas e habitantes empenhados. E aqui, nem muito longe, vai tudo por água abaixo. O pavilhão desportivo parece ainda ser um ponto de encontro popular. Por todo o lado há cartazes a fazer publicidade ao ténis de mesa no pavilhão. Pois, e a gelataria funciona bem, coisa que mais tarde vamos ainda verificar. A Andrea hoje voltou a «caminhar bem», mas primeiro é preciso livrar-nos das mochilas. Graças à boa sinalização, a casa paroquial encontra-se depressa. Também aqui há um papel na janela com pessoas de contacto. O segundo número funciona. Atende uma voz de mulher, que nos diz que ainda está em Dahlen e que estará connosco dentro de 20 minutos. Sentamo-nos no jardim da casa paroquial, debaixo de uma espécie de caramanchão, e vemos um homem a mexer no muro de pedra natural da propriedade. Ele tem a chave da garagem, mas não a da casa. Mas depois chega um carro e deixam-nos entrar.

A igreja de Börln
A senhora mostra-nos a sala comum e, ao lado, a (bem, digamos assim) cozinha, onde também as casas de banho e o duche estão separados por paredes improvisadas. A sala é usada pela paróquia. No meio há uma mesa grande com muitas cadeiras e a primeira coisa que perguntamos é onde podemos dormir. Depois descubro uns colchões dobrados em cima do armário. E fica tudo esclarecido. A senhora despede-se avisando que pode ser que haja ali um evento esta noite. Para não incomodar, deixamos então tudo nas mochilas, pomo-las a um canto e vamos até à gelataria.

A Andrea «caminhou bem»
Porque a Andrea «caminhou bem». Ficamos mesmo admirados com a oferta e com a afluência. Na esplanada já há algumas mesas ocupadas e, mesmo depois de nos juntarmos, continua a chegar cada vez mais gente. Há sobretudo gelado soft. Em várias versões, também se pode levar para casa em quantidades maiores. Parece que o negócio corre bem, digo eu. E o gelado é mesmo bom, tenho de admitir, embora eu não seja grande apreciador de gelados. Depois da gelataria, ainda damos uma volta pela localidade. A igreja está fechada, o solar também já conheceu melhores dias e a toda a hora vemos quintas abandonadas. A aldeia está praticamente morta, a não ser que ainda aconteça um milagre. Também a senhora que nos tinha deixado entrar não transbordava propriamente de otimismo em relação à terra.

Junto ao lago
Acabamos sentados junto a um grande lago, cuja água cintila ao sol poente, atrás de nós — claro — uma casa abandonada. Terminamos então a volta e regressamos à casa paroquial. Esta, pelo menos por fora, dá uma impressão sólida. Tiro os colchões de cima do armário e a Andrea ainda varre o chão antes de eu os pôr no chão. Não somos especialmente esquisitos. Mas a Andrea parece ser a primeira em muito tempo a pegar aqui numa vassoura. Como vamos ficar tão perto do chão, é mesmo melhor assim. Em cima do piano, que alguém pintou de branco (quem é que se lembra de uma coisa destas?, pergunta a Andrea), está uma aparelhagem. Consigo pô-la a funcionar e assim encho a sala com um pouco de música para o jantar.

Toca a ir para o ninho
Hoje não vamos ficar acordados até tarde. A Betina ainda nos manda um SMS a dizer que está quase em casa. Conseguiu arranjar numa loja de bebidas uma grade de Ur-Krostitzer, escreve ela. Não consigo deixar de sorrir e de pensar na guerra da cerveja de Delitzsch. A Andrea já está a dormitar e eu, depois de acabar a minha cerveja, também vou para o colchão. O rádio canta-nos até adormecermos e continua a tocar a noite inteira. Amanhã é o nosso último dia.
O último dia: Börln – Wurzen – Nepperwitz
Então? Porque é que hoje já é o nosso último dia? Ainda estamos pelo menos a dois dias de casa, não estamos? Aqui fica a explicação: é por causa da nossa vadiagem. Tínhamos um plano bastante fixo. E esse plano previa que estivéssemos em casa a 2 de outubro. Só que encurtámos a etapa até Panschwitz-Kuckau e ficámos em Crostwitz. Por causa do tempo, em Kamenz tínhamos terminado a etapa muito mais cedo do que o previsto. Assim ficámos com um dia de atraso, que em 200 quilómetros não se consegue recuperar. Visto assim, porém, tudo encaixou. Porque, de outro modo, nunca teríamos conhecido a nossa simpática companheira de viagem. Mas voltemos ao decorrer do dia:

Na padaria de Börln
Dormi bastante bem nos colchões. Como podíamos escolher à vontade e não veio mais ninguém depois de nós, pus logo dois colchões um em cima do outro para cada um de nós. Ficou bem confortável. Hoje, no último dia, não temos de nos preocupar com o pequeno-almoço. Em Börln há uma padaria e, como tínhamos visto ontem na nossa volta, também hoje devia estar aberta. Arrumamos então depressa as nossas coisas. Volto a pôr os colchões em cima do armário com esforço e logo fechamos atrás de nós a porta da casa paroquial. A padaria está mesmo aberta, mas não me dá a impressão de que vá continuar assim por muito tempo. O estado do mobiliário da loja é desastroso e a sala de vendas também precisava de uma pintura nova. Nem quero saber como está aquilo lá atrás. Enquanto estamos ali sentados a beberricar o nosso café, tenho tempo para olhar melhor à volta. E é aí que reparamos nestas coisas. Só uma cliente entra na loja durante o tempo em que ali tomamos o pequeno-almoço. Quando atravessamos a aldeia, ela parece deserta. Outra coisa ter-me-ia surpreendido.

A manhã no parque de Börln
Atravessamos o parque, onde o sol pinta pontos coloridos no chão. Pouco antes de Heyda, o caminho vira à esquerda para uma bonita alameda de tílias. Também aqui há imensos cogumelos, que já se veem da orla do bosque. Uma placa revela-nos que aqui há uma pedreira e também um miradouro de onde se pode espreitar para o buraco sem perigo. O miradouro não o encontramos. Mas pelo meio do mato há trilhos estreitos, que seguimos. E de repente estamos junto a um grande lago, cujas margens rochosas e escarpadas revelam que aqui há uma pedreira.

Pedreira em Dornreichenbach
Não parece que ainda se extraia aqui pórfiro. É que os acessos já estão bastante cobertos de vegetação. Mas por todo o lado há placas que remetem para a «Dornreichenbacher Quarzporphyrwerk GmbH». Seguimos em frente e chegamos a Dornreichenbach. É uma localidade bastante vistosa, com um palácio, o respetivo parque, um palco ao ar livre e um parque de animais. Para uma aldeia tão pequena, com pouco menos de 500 habitantes, é bastante generoso e mais uma prova de que é possível quando cidadãos empenhados se unem. Depois de Dornreichenbach segue-se outra vez um caminho muito bonito por campo aberto.

Sinalização depois de Dornreichenbach
As filas de árvores muito juntas à direita e à esquerda do caminho revelam que ele já é muito antigo. Em algumas destas árvores estão pendurados papéis plastificados com versículos da Bíblia. Aqui alguém cuida com muita dedicação deste troço do caminho. Aliás, posso dizer que todo o caminho até agora esteve muito bem sinalizado. Depois de nos habituarmos ao sistema e de pensarmos como quem colocou as setas, não são precisos mapas. Parece haver duas fases distintas de sinalização: uma bastante antiga, de 2003, e uma mais recente. A sinalização antiga consiste sobretudo em símbolos de vieira pintados com stencil sobre fundo azul. As pequenas marcas quadradas estão pintadas em postes, árvores ou outras coisas que não se removem facilmente. Mas, com o passar dos anos, muitas vezes ficaram cobertas pela vegetação ou tapadas. As placas mais modernas têm um ar mais profissional, ou seja, são impressas a sério e estão também coladas como autocolantes em objetos adequados.

O que é isto?
Não consegui detetar vandalismo nem falta evidente de sinais. O caminho é conhecido dos habitantes, é respeitado, apreciado, e as pessoas conhecem o sentido e a finalidade de um caminho assim. Muitas localidades aproveitaram a existência deste caminho para se promoverem. Isso vê-se nas vitrinas informativas das localidades, nos bancos colocados de propósito para os peregrinos ou na presença na internet (quando existe). Os albergues registam um aumento constante de dormidas, não só graças à excelente infraestrutura do Caminho Ecuménico de Peregrinação. Claro que também há coisas que podem ser melhoradas. Tal como no caminho de peregrinação pelo Mecklemburgo e no troço da Via Regia que fizemos já em 2012, há diferenças bastante grandes entre os alojamentos para peregrinos. Constata-se que as ofertas privadas são prestadas com muito empenho e carinho, enquanto o entusiasmo com o fluxo de peregrinos em algumas casas paroquiais deixa por vezes a desejar. Isso pode dever-se à sobrecarga dos párocos, mas também à falta de interesse da respetiva paróquia. Pelo menos pode dizer-se que, neste caminho, os organizadores conseguiram arranjar alojamentos adequados a peregrinos em número suficiente. Por adequado a peregrinos entendo, neste contexto, um equipamento barato e funcional e a oferta de conversa ou também de recolhimento interior (se desejado). Fica assim um primeiro balanço. Afinal estamos na última etapa.

Moinho de vento de cavalete de Kühnitzsch
Entretanto, claro, continuámos a andar. À direita, um pouco afastado da «Alte Dorfstraße», como se chama este troço do caminho, vemos um moinho de vento de cavalete muito bem restaurado. O moinho de Kühnitzsch é um monumento técnico e é cuidado pela associação Heimat- und Schulverein Kühnitzsch/Körlitz e.V. Foi construído em 1812 e está totalmente operacional. O que tem de especial este moinho é que é virado para o vento por um trator Lanz Bulldog preso à vara de orientação. Este tipo de moinho de vento é muito comum aqui no centro e norte da Saxónia. Todos os anos, no Pentecostes, realiza-se aqui o Dia dos Moinhos. Nesse dia todos os moinhos estão abertos e pode-se ir de bicicleta ou de carro de moinho em moinho. Muitas vezes não se mostra só o moinho, mas há também outras atividades, como exposições, feiras ou bailes.

Em Körlitz
Mas deixamos o moinho para trás, à direita, e chegamos a Körlitz. Na localidade o caminho divide-se e pode-se seguir o percurso original pela estrada asfaltada entre localidades ou a variante por um caminho de terra até Roitzsch. Os dois caminhos estão bem sinalizados. O mais bonito, pelo caminho de terra, tem no entanto mais um quilómetro. Tudo isto está escrito numa placa por baixo das setas em Körlitz. Escolhemos o mais bonito dos dois, mas ficamos um pouco desiludidos quando afinal ainda temos de fazer um terço do caminho por uma estrada asfaltada. Quando, depois de um parque solar, viramos à direita para um caminho de terra, já vemos as torres marcantes da cidade de Wurzen.

Wurzen à vista
São sobretudo as torres da catedral de St. Marien, da Wenceslaikirche e da «fábrica das bolachas», como ainda hoje o povo chama à «Wurzener Dauerbackwaren GmbH». À beira do caminho há grandes pomares de macieiras e campos de morangos. Enquanto estes últimos, claro, já foram colhidos há muito, as macieiras estão carregadíssimas. O caminho parece passar ao lado da cidade de Wurzen pela esquerda, mas de repente faz uma curva à direita e assim, passando por um pequeno lago, regressamos ao percurso original no bairro de Roitzsch. Agora são só algumas centenas de metros até ao centro de Wurzen, a cidade das bolachas e de Ringelnatz. Às bolachas ainda lá chegaremos. Joachim Ringelnatz é o filho mais ilustre de Wurzen. Nasceu aqui e a sua casa natal no Crostigall é um destino de passeio muito apreciado. O Crostigall é um bairro de Wurzen considerado a origem do desenvolvimento da cidade. A cidade de Wurzen recorda Ringelnatz com uma fonte instalada na praça do mercado em 1983, no seu centenário, com a coleção Ringelnatz no museu e com um percurso sinalizado dedicado a Ringelnatz. Por toda a cidade se vê o conhecido retrato do famoso escritor, humorista, artista de cabaré e pintor.

Saudação de boas-vindas na Jakobsplatz de Wurzen
O que vemos agora na Jakobsplatz é uma saudação especial da cidade aos peregrinos da Via Regia. No meio da praça, na calçada de pedra miúda, está embutida uma vieira em mosaico, e duas pedras indicam a direção de onde viemos, «Görlitz 195 km», e o destino do caminho, «Santiago de Compostela 2918 km». Sobre este último número, no entanto, pode-se discutir. É que depois de Erfurt vimos no ano passado uma placa segundo a qual ainda seriam mais de 3000 quilómetros. Mas, enfim, há pelo menos tantos caminhos para Santiago como para Roma. Aproveitamos a paragem na Jakobsplatz para comer uma salsicha grelhada e, enquanto estou na fila da banca das salsichas, a Andrea conversa com duas senhoras que nos identificaram como peregrinos e têm agora algumas perguntas. Quando as minhas salsichas finalmente ficam prontas, a Andrea já está outra vez sozinha no banco.

Albergue de peregrinos «zur Kräuterfee» na Jakobsgasse
Sento-me ao lado dela e volto a ter tempo para olhar à volta e descubro mais referências ao caminho de peregrinação. Estamos sentados na «Jakobsplatz», há um «Jakobs Eck» e daqui sai uma «Jakobsgasse». «Vamos por essa!», digo eu, e passeamos pela rua estreita, passando pela «Kräuterfee». Está escrito na porta da loja: albergue de peregrinos. Que pena, de certeza que teria sido interessante. A Betina tinha dito uma vez qualquer coisa sobre querer dormir aqui. Infelizmente acabou por não acontecer. Mas seguimos até à praça do mercado. Há muito tempo que não vinha a Wurzen e lembrava-me da praça só em cinzento/preto. Aqui e ali a tinta já está outra vez a descascar, mas, de resto, a praça do mercado brilha em cores frescas.

Praça do mercado com a fonte de Ringelnatz
Por todo o lado se veem edifícios renascentistas e barrocos que, ao lado de prédios de habitação e comerciais mais recentes com ricas fachadas Arte Nova, criam um ambiente muito próprio. A Andrea, aliás, acha horrível a fonte de Ringelnatz, que fica na parte de baixo da praça. E, no entanto, foram precisos nada menos do que 10 anos desde o primeiro conceito até à execução. Mas eu acho que o Joachim teria gostado dela, porque a fonte corresponde ao seu humor um tanto excêntrico. Uns degraus acima e estamos em frente ao Domcafé. O sol brilha e sentamo-nos lá fora para, mais uma vez, beber um café. É maravilhoso estar sentado na praça do mercado de uma cidade a observar as pessoas.

Praça do mercado em Wurzen
É meio-dia e reina uma descontração que sabe bem. Deste lado da praça, já a caminho da Domplatz, o passeio é uma espécie de varanda, a que se sobe por escadas, a chamada Liegenbank. Por trás de gradeamentos de ferro forjado, os restaurantes e cafés põem as suas mesas e daqui tem-se uma bela vista sobre a praça e algumas ruelas vizinhas. Da Wenceslaikirche, que se ergue à nossa frente no Sperlingsberg, soam as 12 badaladas. Ainda temos imenso tempo. É que até Nepperwitz, o nosso ponto final de hoje, já não falta muito. Então passeamos pela Domstraße, passando pelo museu da cidade, até ao palácio.

Palácio de Wurzen
O palácio de Wurzen é considerado o palácio mais antigo do espaço de língua alemã. Já no século X terá existido no mesmo local uma construção semelhante. A existência de um fosso em redor do edifício maciço e os vestígios de uma antiga ponte levadiça marcam a transição arquitetónica de um castelo medieval fortificado para um palácio residencial. Conheço o palácio bastante bem, pois no tempo da RDA instalou-se aqui o comando distrital da Volkspolizei e eu, no serviço técnico da polícia, era responsável, entre outras, por esta repartição. Era sempre um grande desafio quando, por exemplo, era preciso passar cabos aqui. Queríamos causar o menor dano possível a estas velhas muralhas, porque tínhamos respeito por elas. Mas nem sempre se conseguia evitar meter a mão com um pouco mais de força. Ainda me lembro de que, para um cabo de 2 centímetros de espessura, tivemos uma vez de abrir um buraco de meio metro na parede, porque precisamente naquele sítio estava metido um grande pedregulho na parede com um metro de espessura. Alguns anos depois da queda do Muro, a polícia mudou-se para um edifício moderno, o palácio foi restaurado e instalou-se nele um hotel.

Catedral de St. Marien
Em frente ao palácio fica a catedral de St Marien. Nunca a vi sem andaimes. E também desta vez há andaimes no pátio do palácio. Todas as portas deste lado estão fechadas. Voltamos à Domplatz para procurar uma porta aberta da catedral. Nela pedem-nos compreensão pelo facto de o interior da catedral ser vigiado por vídeo, porque houve repetidos furtos. Caramba, que gente há neste mundo! Em 1114 a catedral foi consagrada pelo bispo Herwig de Meißen como basílica de pilares. A catedral românica é um dos edifícios sacros mais antigos e interessantes da Saxónia e o testemunho arquitetónico mais antigo de Wurzen. A história da catedral é fascinante. Em meados do século XV ardeu por completo e foi reconstruída no início do século XVI.

O expressivo grupo da Crucificação na catedral
Depois da Guerra dos Trinta Anos e da Reforma, as torres receberam as suas coberturas barrocas. No início do século XIX foi remodelada em estilo neogótico e, nos anos trinta do século passado, a catedral ganhou o aspeto atual. Além disso, a entrada foi transferida para a torre e o professor Wrba, de Dresden, criou o expressivo grupo da Crucificação e o púlpito. Depois de sairmos da catedral, procuro as setas. Encontro uma na Domplatz, mesmo em frente à entrada do palácio. Esta é um pouco enganadora, porque se poderia pensar que aponta para o pátio do palácio. Não, o caminho passa à esquerda do palácio e desce umas escadas do Schlossberg até à Muldengasse. Mas isto não tem nada ar de ruela, parece mais uma avenida de aparato.

A «fábrica das bolachas»
As grossas tílias foram, em todo o caso, suficientemente imponentes para a entrada da «fábrica das bolachas». Passamos pelo grande portão do recinto fabril e vemos as duas torres de moagem em toda a sua imponência. São a primeira coisa em que se repara quando se chega à cidade, venha-se de onde se vier. Desde 1847 que aqui se fabricam bolachas e biscoitos finos. No tempo da RDA, a «Wurzener» era o produtor mais importante destes produtos. Depois da queda do Muro, o grupo De Beukelaer ficou com a empresa. Mas «Wurzener» continua a ser vendida como marca. Os edifícios históricos da fábrica foram restaurados com grande esforço e sobretudo as torres de moagem são consideradas um símbolo da cidade, visível de longe. O caminho segue agora, na verdade, na direção contrária. É que a ponte sobre o Mulde fica a norte de nós. Mas andamos um bom bocado por uma alameda de tílias em direção a sul, para depois atravessarmos a ponte sobre um canal. Seguimos agora ao longo deste canal, à esquerda o canal, com cerca de 20 metros de largura, e à direita o dique do Mulde. O Mulde corre uns 150 metros mais além.

Ave de rapina no dique do Mulde
Ao longe já vemos a torre da igreja de Nepperwitz. Junto ao canal, um pescador está a arrumar o material e uma breve olhadela diz-me que um «boa pesca» teria sido em vão. O pescador cumprimenta só de passagem e, pela cara dele, nem me atrevo a perguntar pelo que apanhou. Passados cerca de 2 quilómetros, o caminho vira à esquerda para um dique, sobre o qual uma estrada empedrada leva até ao Mulde. Aqui e ali ainda se veem os estragos que a última cheia também provocou nesta estrada. A ponte estreita pela qual chegamos a Grubnitz resistiu à cheia, o que é quase um milagre para quem, como eu, viu com os próprios olhos as massas de água que aqui passaram. Debaixo de uma fila de castanheiros-da-índia, que se ergue junto ao Mulde entre os diques, ainda há muitos destroços trazidos pela água. E no meio deles anda um homem já de idade, atarefado. «É para os animais», diz ele. E percebo o que ele anda a fazer. Remexe a erva com um pau à procura de castanhas. O cesto já está quase cheio. Quer levar as castanhas para o jardim zoológico. Em crianças também fazíamos muito isso. Mas que criança consegue hoje separar-se do computador ou do telemóvel? Há pouco tempo li uma frase: quando eu era pequeno, a minha rede social chamava-se «lá fora». No fundo, isso diz tudo. Embora não se possa culpar as próprias crianças. Porque, se não estão na rede, não estão «in» e são alvo de bullying. Mas estou outra vez a divagar, tão perto da meta. A partir de Grubnitz, que tal como Nepperwitz também foi atingida pela última cheia, em junho de 2013, seguimos por uma pequena estrada asfaltada até à entrada da última localidade da nossa caminhada deste ano.

Nepperwitz
O Caminho Ecuménico de Peregrinação termina hoje para nós, infelizmente, já aqui em Nepperwitz. Mas, antes de o nosso filho nos vir buscar de carro, ainda vamos dar uma olhadela ao albergue. Depois da cheia foi recuperado e está aberto. Quer dizer, neste momento está fechado e não queremos, sem tencionarmos dormir aqui, alarmar os responsáveis da terra só porque queremos espreitar lá para dentro. Depois sentamo-nos na paragem do autocarro e esperamos pelo nosso filho. É assim, sem nada de espetacular, que termina esta peregrinação. Eu até gostava de ter ido a pé até casa, mesmo que o percurso já não correspondesse ao traçado da Via Regia. Mas amanhã temos compromissos. Caminhar num caminho de peregrinação rumo a uma meta que depois se encontra em Santiago, isso já vivemos duas vezes. A meta, claro, tem um grande papel nos pensamentos enquanto se caminha. Como seria em Nepperwitz – desculpem, mas nisso nunca pensei. Por isso, a frase «o caminho é a meta» é aqui, num troço de um caminho de peregrinação, muito mais significativa do que a meta geográfica. Também neste caminho vivemos muitas coisas, conhecemos muitas pessoas novas, sentimos muita confiança e carinho, vimos muitas cidades e aldeias e caminhámos pelas belas paisagens da Saxónia. Outros caminhos virão, com certeza. Mas cada um continua a ser algo especial. Tentei escrever as minhas e as nossas experiências da forma mais compreensível e agradável possível. Embora inicialmente o tenha feito apenas para que as minhas recordações não se desvanecessem depressa demais, estou bem consciente do impacto que um blog público como este tem. Mais de dois mil acessos falam por si e fico muito contente com o grande interesse. Mas se vocês leram tudo isto e mesmo assim continuam sem vontade de partir por um dos muitos caminhos de peregrinação, então já não vos posso ajudar. Mas ficaria muito contente com cada pessoa que se sentisse inspirada pelas minhas linhas. Se tiverem perguntas, terei todo o gosto em responder, de bom grado também pessoalmente por e-mail. Pois, e se depois voltarem e deixarem aqui talvez um comentário a contar como vos correu, isso seria para mim a recompensa por todo este trabalho. Até lá, despeço-me com um
Buen Camino!

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